Zoonoses e intoxicação

Aqui, podem ser encontradas informações sobre intoxicação por medicamentos ou agrotóxicos, envenenamento infantil, zoonoses e acidentes com animais peçonhentos.

E lembre-se: todos os animais participam ativamente do equilíbrio ecológico e são de grande utilidade no controle de pragas. Aprenda a conviver em harmonia com os animais, respeitando seu ecossistema e evitando, assim, graves acidentes.

 
Animais peçonhentos
 
Serpentes
 
Ofidismo

Dentre os acidentes por animais peçonhentos, o ofidismo é o principal deles, pela sua frequência e gravidade. Ocorre em todas as regiões e estados brasileiros e é um importante problema de saúde, quando não se institui a soroterapia de forma precoce e adequada.

 
Agentes causais

São 4 os gêneros de serpentes brasileiras de importância médica (Bothrops, Crotalus, Lachesis e Micrurus) compreendendo cerca de 60 espécies. Alguns critérios de identificação permitem reconhecer a maioria das serpentes peçonhentas brasileiras, distinguindo-as das não peçonhentas:

  • As serpentes peçonhentas possuem dentes inoculadores de veneno, localizados na região anterior do maxilar superior. Nas Micrurus (corais), essas presas são fixas e pequenas, podendo passar despercebidas.
  • Presença de fosseta loreal - com exceção das corais, as serpentes peçonhentas têm entre a narina e o olho um orifício termo receptor, denominado fosseta loreal. Vista em posição frontal este animal apresentará 4 orifícios na região anterior da cabeça, o que justifica a denominação popular de "cobra de quatro ventas".
  • As corais verdadeiras (Micrurus) são a exceção à regra acima referida, pois apresentam características externas iguais às das serpentes não peçonhentas (são desprovidas de fosseta loreal, apresentando coloração viva e brilhante). De modo geral, toda serpente com padrão de coloração que inclua anéis coloridos deve ser considerada perigosa.
  • As serpentes não peçonhentas têm geralmente hábitos diurnos, vivem em todos os ambientes, particularmente próximos às coleções líquidas, têm coloração viva, brilhante e escamas lisas. São popularmente conhecidas por "cobras d'água", "cobra cipó", "cobra verde", dentre outras numerosas denominações. Estão relacionadas, abaixo, as espécies consideradas de maior importância médico-sanitária, em face do número ou da gravidade dos acidentes que provocam, nas diversas regiões do país.
 
Grupos de serpentes
 
Grupo botrópico

Apresentam cabeça triangular, fosseta loreal, cauda lisa e presa inoculadora de veneno.

 

Grupo botrópico

 

 
Grupo crotálico

Tem cabeça triangular, presença de fosseta loreal, cauda com chocalho (guizo) e presa inoculadora de veneno.

Grupo crotálico
 
Grupo laquético

Tem grande porte, cabeça triangular, fosseta loreal e cauda com escamas arrepiadas e presa inoculadora de veneno.

Grupo laquético
 
Grupo elapídico

São desprovidas de fosseta loreal, com cabeça arredondada e presa inoculadora de veneno. A característica fundamental no reconhecimento desse grupo é o padrão de coloração, com combinações diversas de anéis vermelhos, pretos e brancos. Deve-se considerar que existem serpentes com desenhos semelhantes aos das corais, mas que não possuem presa inoculadora. Há ainda, na Amazônia, corais verdadeiras com cor marrom escura, quase negra e ventre avermelhado.

Grupo elapídico

 

 
Distribuição, morbidade, mortalidade e letalidade

A distribuição sazonal dos casos, embora apresente diferenças regionais mostra, para o país como um todo, incremento no número de casos no período de setembro a março. Sendo a maioria das notificações procedentes das regiões meridionais do país, a tendência detectada estaria relacionada, nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, ao aumento da atividade humana nos trabalhos do campo (preparo da terra, plantio e colheita) e da não utilização de equipamentos mínimos de proteção individual (calçados ou vestimenta adequados). Cerca de 75% dos casos notificados são atribuídos às ser-pentes do gênero Bothrops; 7% ao gênero Crotalus; 1,5% ao gênero Lachesis; 3% devidos às serpentes não peçonhentas e 0,5% provocados por Micrurus. Em aproximadamente 13% das notificações, não são especificados os gêneros das serpentes envolvidas nos acidentes. Cerca de 70% dos pacientes são do sexo masculino, o que é justificado pelo fato do homem desempenhar com mais freqüência atividades de trabalho fora da moradia, onde os acidentes ofídicos habitualmente ocorrem. Em aproximadamente 53% das notificações, a faixa etária acometida situou-se entre 15-49 anos, que corresponde ao grupo de idade onde se concentra a força de trabalho. O acometimento dos segmentos pé/perna em 70%, e mão/antebraço, em 13% dos casos notificados, decorre da não utilização de equipamentos mínimos de proteção individual, tais como sapatos, botas, calças de uso comum e luvas. No Brasil são notificados anualmente cerca de 20.000 acidentes, com uma letalidade em torno de 0,43%. O acidente crotálico tem a pior evolução, apresentando o maior índice de letalidade. Os valores detectados para os diver-sos tipos de acidentes assim se distribuíram: Botrópico, 0,31%; Crotálico, 1,85%; Laquético, 0,95% e Elapídico, 0,36%. Em cerca de 19% dos óbitos não são informados os gêneros das serpentes envolvidas nos acidentes.

Resumo de acidentes por serpentes
 
Aspectos clínicos

As alterações clínicas mais comumente observadas na fase aguda dos diversos tipos de envenenamento possibilitam o diagnóstico clínico, com boa margem de acerto.

 
Acidente botrópico

No local da picada as manifestações mais freqüentes são edema, dor, equimose e sangramento. Alterações sistêmicas, como a incoagulabilidade sangüínea (avaliada pela determinação do tempo de coagulação), pode ser acompanhada de fenômenos hemorrágicos como gengivorragia, hematúria, sangramentos por ferimentos recentes. Oligoanúria e/ou alterações hemodinâmicas, como hipotensão arterial persistente e choque, definem os casos como graves.

 
Acidente laquético

Bastante semelhante ao acidente botrópico. Além das alterações acima referidas, têm sido descritos fenômenos de excitação vagal, clinicamente traduzidos por bradicardia, hipotensão arterial, diarréia e vômitos.

 
Acidente crotálico

O quadro local é pouco expressivo, não há edema ou dor, eventualmente sendo referida parestesia local. Das manifestações sistêmicas, o quadro neuroparalítico é de aparecimento precoce caracterizando-se por ptose palpebral, diplopia e oftalmoplegia. Mialgia generalizada, acompanhada de mioglobinúria, se manifesta cerca de 6 a 12 horas após o acidente, podendo haver evolução para insuficiência renal aguda, causa maior de óbito desse grupo.

 
Acidente elapídico

O quadro neuroparalítico se manifesta por ptose palpebral, diplopia, mialgia e dispnéia, podendo evoluir para insuficiência respiratória aguda e óbito.

 
Diagnóstico laboratorial

A determinação do Tempo de Coagulação (TC) constitui-se em medida auxiliar extremamente útil para confirmação de suspeita diagnóstica, pois muitos acidentes apresentam a incoagulabilidade sangüínea como única alteração detectável que possibilita o diagnóstico do envenenamento.

 

 
Acidentes
 
Botrópico

Corresponde ao acidente ofídico de maior importância epidemiológica no país. A taxa de letalidade é de 0,3%.
No Paraná, são encontradas com maior freqüência: Bothrops alternatus (urutu, cruzeira, urutu cruzeiro), Bothrops jararaca ( jararaca, jararaca do rabo branco), B. jararacuçu (jararacuçu), B. moojenii (caiçaca, jararacão, jararaca), B. cotiara (cotiara), B. neuwiedi (jararaca pintada). 

Jararaca

 

Jararaca (Bothrops)
Possui fosseta loreal ou lacrimal, tendo a extremidade da cauda com escamas e cor geralmente parda.
Nomes populares: Caiçaca, Jararacuçu, Urutu, Jararaca de Rabo Branco, Cotiara, Cruzeira e outros.
Algumas espécies são mais agressivas e encontram-se geralmente em locais úmidos.
São responsáveis por 70% dos acidentes ofídicos no Estado

 
 
Ações do veneno
 
Ação proteolítica

As lesões locais como edema, bolhas e necrose, atribuídas inicialmente à “ação proteolítica”, tem patogênese complexa. Possivelmente, decorrem da atividade de proteases, hialuronidases e fosfolipases, da liberação de mediadores da resposta inflamatória, da ação das hemorraginas sobre o endotélio vascular e da ação pró-coagulante do veneno.

 
Ação coagulante

A maioria dos venenos botrópicos ativa, de modo isolado ou simultâneo, o fator X e a protrombina. Possuem também ação semelhante à trombina, convertendo o fibrinogênio em fibrina. Essas ações produzem distúrbios da coagulação, caracterizados por consumo dos seus fatores, geração de produtos de degradação de fibrina em fibrinogênio, podendo ocasionar incoagulabilidade sangüínea. Este quadro é semelhante ao da coagulação intravascular disseminada. Também podem levar a alteração da função plaquetária, bem como plaquetopenia.

 
Ação hemorrágica

Decorre da presença de hemorraginas, que provocam lesões na membrana basal dos capilares, associada à plaquetopenia e alterações da coagulação.

 

 
Quadro clínico
 
Manifestações locais

Dor e edema endurado no local da picada, de intensidade variável, geralmente de instalação precoce e caráter progressivo. Equimoses e sangramentos no ponto da picada são freqüentes. Infartamento ganglionar e bolhas podem aparecer na evolução, acompanhados ou não de necrose.

 
Manifestações sistêmicas

Além de sangramentos em ferimentos pré-existentes, são observadas hemorragias à distância como gengivorragias, epistaxes, hematêmese e hematúria. Em gestantes, há risco de hemorragia uterina. Podem ocorrer náuseas, vômitos, sudorese, hipotensão arterial, hipotermia e mais raramente, choque. Nos acidentes causados por filhotes de Bothrops predominam as alterações de coagulação; dor e edema locais podem estar ausentes.

 

 
Classificação dos acidentes botrópicos

Com base nas manifestações clínicas e visando a terapêutica, os acidentes botrópicos são classificados em leve, moderado e grave.

  • Leve: forma mais comum do envenenamento, caracterizada por dor e edema local pouco intenso ou ausente, manifestações hemorrágicas discretas ou ausentes, com ou sem alteração do Tempo de Coagulação. O Tempo de Coagulação alterado pode ser o único elemento que possibilite o diagnóstico, principalmente em acidentes causados por filhotes de Bothrops (<40cm de comprimento).
  • Moderado: caracterizado por dor intensa e edema local evidente, que ultrapassa o segmento anatômico picado, acompanhados ou não de alterações hemorrágicas locais ou sistêmicas como gengivorragia, epistaxe e hematúria.
  • Grave: caracterizado por edema local endurado, podendo atingir todo o segmento picado, eventualmente com presença de equimoses e bolhas. Em decorrência de edema podem aparecer sinais de isquemia local devido a compressão dos feixes vásculo-nervosos. Manifestações sistêmicas importantes como hipotensão arterial, choque, oligoanúria ou hemorragias intensas definem o caso como grave, independentemente do quadro local.
 
Complicações
  • Complicações locais: Podem ocorrer sindrome compartimental (em casos graves, tratado por fasciotomia), abcessos, necrose (em extremidades de dedos pode evoluir para gangrena, devem ser tratados com debridamento).
  • Complicações sistêmicas: choque (em casos graves) e Insuficiência Renal Aguda (IRA).
 
Exames complementares
  • Tempo de Coagulação (TC): De fácil execução, sua determinação é importante para elucidação diagnóstica e para o acompanhamento dos casos. TC normal: até 10 min; TC alterado: de 10 a 30 min; TC incoagulável: acima de 30 minutos.
  • Hemograma: Geralmente revela leucocitose com neutrofilia e desvio à esquerda, hemossedimentação elevada nas primeiras horas do acidente e plaquetopenia de intensidade variável. Tempo de Protrombina (TP), Tempo de Protrombina Parcialmente Ativada (TPPA), Tempo de Trombina (TT) e Dosagem de Fibrinogênio podem ser pesquisados.
  • Exame sumário de urina: Pode haver proteinúria, hematúria e leucocitúria.
  • Outros exames laboratoriais: Depende da evolução clínica do paciente, com atenção aos eletrólitos, uréia e creatinina, visando detecção de insuficiência renal aguda. Métodos de imunodiagnóstico através da técnica de Elisa.
 
Tratamento
  • Tratamento específico: consiste no emprego, o mais precocemente possível do Soro Antibotrópico (SAB) ou, na falta deste, das associações antibotrópico-crotálico (SABC). Se TC permanecer alterado 24 horas após soroterapia, está indicado dose adicional de antiveneno. A posologia está indicada no Quadro Resumo no decorrer do capítulo.
  • Tratamento geral: drenagem postural do segmento picado, analgesia, hidratação, antibioticoterapia quando evidências de infecção.
Resumo manifestação brotópico

 

 
Crotálico

As serpentes do gênero Crotalus (cascavéis) distribuem-se de maneira irregular pelo país, determinando as variações com que a freqüência de acidentes é registrada. Responsáveis por cerca de 7,7 % dos acidentes ofídicos registrados no Brasil, podendo representar até 30% dos acidentes em algumas regiões. Não são encontradas em regiões litorâneas. Apresentam o maior coeficiente de letalidade dentre todos os acidentes ofídicos (1,87%), pela freqüência com que evoluem para insuficiência renal aguda (IRA).

Cascavel

 

 

CASCAVEL (Crotalus)
Possui fosseta loreal ou lacrimal; a extremidade da cauda apresenta guizo ou chocalho de cor amarelada.
Nomes populares: Cascavel, Boicininga, Maracambóia, etc.
Essas serpentes são menos agressivas que as Jararacas e encontram-se geralmente em locais secos.
11% dos acidentes ofídicos no Estado são atribuídos às cascavéis.

 

 
Ações do veneno

As subespécies Crotalus durissus terrificus e C.d collineatus foram as mais estudadas sob o ponto de vista de seus venenos e também dos aspectos clínicos e laboratoriais encontrados nos envenenamentos.

 
Ação neurotóxica

Fundamentalmente produzida pela crotoxina, uma neurotoxina de ação pré-sináptica, que atua nas terminações nervosas, inibindo a liberação de acetilcolina. Esta inibição é o principal responsável pelo bloqueio neuromuscular, do qual decorrem as paralisias motoras apresentadas pelos pacientes.

 
Ação miotóxica

Produz lesões de fibras musculares esqueléticas (rabdomiólise), com liberação de enzimas e mioglobina para o sangue, que são posteriormente excretadas pela urina. Não está perfeitamente identificada a fração do veneno que produz esse efeito miotóxico sistêmico, mas há referências experimentais de ação miotóxica local da crotoxina e da crotamina. A mioglobina excretada na urina foi erroneamente identificada como hemoglobina, atribuindo-se ao veneno uma atividade hemolítica in vivo. Estudos mais recentes não demonstraram a ocorrência de hemólise nos acidentes humanos.

 
Ação Coagulante

Decorre de atividade do tipo trombina que converte o fibrinogênio diretamente em fibrina. O consumo do fibrinogênio pode levar à incoagulabilidade sangüínea. Geralmente não há redução do número de plaquetas. As manifestações hemorrágicas, quando presentes, são discretas.

 

 
Quadro clínico
 
Manifestações locais

Podem ser encontradas as marcas das presas, edema e eritema discretos. Não há dor, ou se existe, é de pequena intensidade. Há parestesia local ou regional, que pode persistir por tempo variável, podendo ser acompanhada de edema discreto ou eritema no ponto da picada. Procedimentos desaconselhados como garroteamento, sucção ou escarificação locais com finalidade de extrair o veneno, podem provocar edema acentuado e lesões cutâneas variáveis.

 
Manifestações sistêmicas
  • Gerais: mal-estar, sudorese, náuseas, vômitos, cefaléia, secura da boca, prostração e sonolência ou inquietação, são de aparecimento precoce e podem estar relacionados a estímulos de origem diversas, nas quais devem atuar o medo e a tensão emocional desencadeada pelo acidente.
  • Neurológicas: decorrentes da ação neurotóxica do veneno: Apresentam-se nas primeiras horas e caracterizam o “fáscies miastênica” (fáscies neurotóxica de Rosenfeld) evidenciadas por ptose palpebral uni ou bilateral, flacidez da musculatura da face, há oftalmoplegia e dificuldade de acomodação (visão turva) ou visão dupla (diplopia) e alteração do diâmetro pupilar (midríase). Com menor frequência pode aparecer paralisia velopalatina, com dificuldade à deglutição, diminuição do reflexo do vômito, modificações no olfato e no paladar. As alterações descritas são sintomas e sinais que regridem após 3 a 5 dias.
  • Musculares: decorrentes da Atividade Miotóxica: Caracterizam-se por dores musculares generalizadas (mialgias), de aparecimento precoce. A urina pode estar clara nas primeiras horas e assim permanecer, ou tornar-se avermelhada (mioglobinúria) e progressivamente marrom nas horas subsequentes, traduzindo a eliminação de quantidades variáveis de mioglobina, pigmento liberado pela necrose do tecido muscular esquelético (rabdomiólise). Não havendo dano renal, a urina readquire a sua coloração habitual em 1 ou 2 dias.
  • Distúrbios da coagulação: pode haver aumento do Tempo de Coagulação (TC) ou incoagulabilidade sangüínea, com queda do fibrinogênio plasmático, em aproximadamente 40% dos pacientes. Raramente há pequenos sangramentos, geralmente restritos às gengivas (gengivorragia).
  • Manifestações clínicas pouco frequentes: insuficiência respiratória aguda, fasciculações e paralisia de grupos musculares têm sido relatadas e interpretadas como decorrentes das atividades neurotóxicas e miotóxicas do veneno.

 

 
Classificação dos acidentes crotálicos
  • Leve: sinais e sintomas neurotóxicos discretos, de aparecimento tardio, fáscies miastênica discreta, mialgia discreta ou ausente, sem alteração da cor da urina.
  • Moderado: sinais e sintomas neurotóxicos: fáscies miastênica evidente, mialgia discreta ou provocada ao exame. A urina pode apresentar coloração alterada.
  • Grave: sinais e sintoma neurotóxicos evidentes: fáscies miastênica, fraqueza muscular, mialgia intensa e urina escura, podendo haver oligúria ou anúria, insuficiência respiratória.
 
Complicações
  • Locais: raramente parestesias locais duradouras, porém reversíveis após algumas semanas.
  • Sistêmicas: insuficiência renal aguda (IRA) com necrose tubular, geralmente de instalação nas primeiras 48 horas.
 
Exames complementares
  • Sangue: pode-se observar valores elevados de Creatinoquinase (CK) – mais precoce, desidrogenase lática (LDH) – mais lento e gradual, aspartase-amino-transferase (AST), aspartase-alanino-transferase (ALT) e aldose. TC freqüentemente está prolongado. Hemograma pode mostrar leucocitose, com neutrofilia e desvio à esquerda.
  • Na fase oligúrica da IRA: elevado: uréia, creatinina, ácido úrico, fósforo, potássio. Diminui: calcemia.
 
Tratamento
  • Específico: soro Anticrotálico (SAC) EV. Dose varia de acordo com gravidade do caso. Poderá ser utilizado o Soro Antibotrópico-crotálico (SABC). Ver posologia no Quadro Resumo, no decorrer do capítulo.
  • Geral: hidratação adequada (fundamental para prevenir IRA), será satisfatória se fluxo urinário de 1 a 2 ml/Kg/h na criança e 30 a 40 ml/h no adulto. Diurese osmótica pode ser induzida com manitol a 20% (5m/Kg na criança e 100ml no adulto), persistindo oligúria, pode-se utilizar diuréticos de alça tipo furosemida EV (1ml/Kg/dose na criança e 40 mg/dose no adulto). O pH urinário deve ser mantido acima de 6,5 com bicarbonato de sódio (urina ácida potencia a precipitação intraglobular de mioglobina), monitorar por controle gasométrico.
Resumo manifestação crotálico

 

 
Elapídico

A maioria das 18 espécies do gênero Micrurus (serpentes corais) possuem um padrão de cor representado por anéis corporais em uma combinação de vermelho (ou alaranjado), branco (ou amarelo) e preto. A presença da cor vermelha é uma indicação de perigo (coloração aposemática) para potenciais predadores, especialmente pássaros.

A letalidade corresponde a 0,4%. Pode evoluir para insuficiência renal aguda, causa de óbito neste tipo de envenenamento.

Seus acidentes são raros, porém, pelo risco de insuficiência respiratória aguda, devem ser considerados como graves.

Cobra coral

 

 

CORAL VERDADEIRA (Micrurus)
Não possui fosseta loreal (Atenção: aus~encia de fosseta loureal é característica de não venenosas. As Corais são exceção).
Coloração em anéis vermelhos, pretos, brancos e amarelos.
Nomes populares: Coral, Coral Verdadeira, Boicorá, etc.
São encontradas em tocas - hábitos subterrâneos. 
Essas serpentes não são agressivas.

 

 
Ações do veneno

Os constituintes tóxicos do veneno são denominados neurotoxinas (NTXs) e atuam da seguinte maneira:

  • NTX de ação pós-sináptica: presentes em todos os venenos elapídicos. São rapidamente absorvidos para a circulação sistêmica e difundidos para os tecidos, devido ao baixo peso molecular, explicando a precocidade dos sintomas do envenenamento. As NTXs competem com a acetilcolina (Ach) pelos receptores colinérgicos da junção neuromuscular, atuando de modo semelhante ao curare. Nos envenenamentos onde predomina essa ação (Micrurus altirostris – antigamente M frontalis), o uso de substâncias anticolinesterásicas (edrofônio e neostigmina) pode prolongar a vida média do neurotransmissor (Ach), levando a uma rápida melhora da sintomatologia.
  • NTX de ação pré-sináptica: estão presentes em algumas corais (M corallinus) e também em alguns Viperídeos, como a cascavel sul-americana. Atuam na junção neuro-muscular, bloqueando a liberação de Ach pelos impulsos nervosos, impedindo a deflagração do potencial de ação. Esse mecanismo não é antagonizado pelas substâncias anticolinesterásicas.
 
Quadro clínico

Os sintomas podem surgir precocemente, em menos de 1 hora (45-75min) após o acidente. Há relatos de aparecimento tardio dos sintomas, por isso recomenda-se a observação clínica por 24 horas.

 
Manifestações
  • Manifestações locais: dor local e discreta (muitas vezes ausente) acompanhado de parestesia de progressão proximal.
  • Manifestações sistêmicas: inicialmente, vômitos, posteriormente fraqueza muscular progressiva, ptose palpebral, sonolência, perda de equilíbrio, sialorréia, oftalmoplegia e presença de fáscies miastênica. Podem surgir mialgia localizada ou generalizada, dificuldade de deglutir e afonia, devido a paralisia do véu palatino. O quadro de paralisia flácida pode comprometer a musculatura respiratória, evoluindo para apnéia e insuficiência respiratória aguda (esta considerada uma complicação do acidente).
 
Exames complementares

Não há específicos para o diagnóstico.

 
Tratamento
  • Tratamento específico: preconiza-se o uso de 10 ampolas de Soro Antielapídico (SAE), via intravenosa. Todos os casos de acidentes por coral com manifestações clínicas devem ser considerados como potencialmente graves.
  • Tratamento geral: nas manifestações de insuficiência respiratória é fundamental ventilação (máscara e AMBU, intubação traqueal e AMBU, ventilação mecânica). Uso de anticolinesterásicos (neostigmina): aplicar 0,05mg/Kg em crianças ou 1 ampola no adulto, por via IV; a resposta é rápida, com melhora evidente do quadro neurotóxico nos primeiros 10min. Se houver melhora, a dose de manutenção da neostigmina é de 0,05 a 0,1mg/Kg, IV, a cada 4 horas ou em intervalos menores, precedida da administração de atropina (antagonista competitivo dos efeitos muscarínicos da Ach, principalmente a bradicardia e a hipersecreção).
Resumo Manifestação Elapídico

 

 
Lachético

Os acidentes com serpentes do gênero Lachesis são raros. É a maior serpente da América Latina, podendo chegar a 4 metros. No Brasil, o gênero Lachesis muta, conhecido popularmente como surucucu, pico-de-jaca, surucutinga, malha de fogo, possui duas subespécies: Lachesis muta muta e Lachesis muta rhombeata. Habitam áreas florestais como Amazônia, Mata Atlântica e alguns enclaves de matas úmidas do Nordeste.

Lachesis muta muta
Lachesis muta muta
Lachesis muta rhombeata
Lachesis muta rhombeata
 
Ações do veneno

O veneno apresenta atividade proteolítica, hemorrágica e coagulante. É relatado também ação neurotóxica, porém ainda não foi isolada a fração específica responsável por esta atividade. A ação proteolítica pode ser comprovada “in vitro” pela presença de proteases. Trabalhos experimentais demonstraram intensa atividade hemorrágica do veneno da Lachesis muta muta, com atividade “trombina like”.

 
Quadro clínico
  • Manifestações locais: semelhantes às do acidente botrópico, predominando dor e edema. Podem surgir vesículas de conteúdo seroso ou sero-hemorrágico nas primeiras horas do acidente. Manifestações hemorrágicas, na maioria dos casos no local da picada.
  • Manifestações sistêmicas: hipotensão arterial, tonturas, escurecimento da visão, bradicardia, cólicas abdominais e diarréia (“síndrome vagal”). 

Os acidentes laquéticos são classificados como moderados e graves.

 
Exames complementares

Determinação do Tempo de Coagulação – TC e outros, segundo a evolução do quadro.

 
Tratamento

De acordo com a gravidade do acidente e manifestações vagais, administrar 10 a 20 ampolas de soro antilaquético por via intravenosa. Controle das manifestações vagais.

 

 

 
Galeria de fotos
 
Serpentes peçonhentas
Bmoojeni AMel
Bmoojeni AMel
Bothrops alternatus
Bothrops alternatus
 
Bothrops cotiara
Bothrops cotiara
Bothrops jararaca
Bothrops jararaca
 
Bothrops jararacussu
Bothrops jararacussu
Crotalus durissus
Crotalus durissus
 
Micrurus coralinus
Micrurus coralinus
Micrurus frontalis
Micrurus frontalis
 
Cdurisus GPuorto
Cdurisus GPuorto
Butantan Tomodon
Butantan tomodon

 

 
Presas proteróglifas das serpentes dos gêneros Bothrops e Crotalus
Presas
Presas
 
Guizo

 

 

 
Serpentes não peçonhentas
Boipeva
Boipeva
Cobra-verde
Cobra-verde

 

Cobra-de-vidro
Cobra-de-vidro
Dormideira
Dormideira

 

Jiboia
Jiboia
Mussurana
Mussurana

 

Sucuri
Sucuri

 

 

 

 

 
Aranhas
 
Araneísmo

É o acidente menos grave e a grande maioria dos casos notificados são provenientes das regiões Sul e Sudeste, o que sugere que nas outras regiões podem ocorrer casos sem que haja registro.

 
Agentes causais
  • Phoneutria nigriventer (aranha-armadeira): responsável pela maioria dos acidentes causados por aranhas na cidade de São Paulo.
  • Phoneutria fera: é encontrada na região Amazônica, mas os dados sobre acidentes são muito precários.
  • Phoneutria keyserling: amplamente distribuída nas regiões Sul e Sudeste, com pequeno número de acidentes registrados.
  • Loxosceles amazonica: relato de acidente no Ceará
  • Loxosceles gaucho (aranha marrom): causa mais freqüente de acidentes em São Paulo.
  • Loxosceles intermedia: principal espécie causadora de acidentes no Paraná e Santa Catarina.
  • Loxosceles laeta: encontrada na região Sul, possivelmente causa de acidentes.
  • Latrodectus curacaviensis (viúva-negra, flamenguinha): acidentes relatados na Bahia e no Ceará.
 
Distribuição e morbidade

São notificados anualmente cerca de 5.000 acidentes. A predominância destas notificações são nas região Sul e Sudeste, dificultando uma análise mais abrangente do acidente em todo o país. Em face das informações disponíveis pode-se considerar:

  • Distribuição segundo os meses do ano: observou-se que os acidentes por Phoneutria aumentam significamente no início da estação fria (abril/maio), enquanto os casos de loxoscelismo sofrem incremento nos meses quentes do ano (outubro/março). Isso pode estar relacionado ao fato de que no Sul e Sudeste, as estações do ano são melhor definidas quando comparadas às demais regiões do país.
  • Distribuição dos casos nos estados: a maioria dos acidentes por Phoneutria foram notificados pelo estado de São Paulo. Com respeito aos acidentes por Loxosceles, os registros provêm das regiões Sudeste e Sul, particularmente no estado do Paraná, onde se concentra a maior casuística de Loxoscelismo do país. A partir da década de 80, começaram a ser relatados acidentes por viúva-negra (Latrodectus) na Bahia e, mais recentemente, no Ceará.
 
Aspectos clínicos

São três gêneros de importância médica no Brasil: Phoneutria, Loxosceles e Latrodectus, responsáveis por quadros clínicos distintos.

  • Foneutrismo: os acidentes causados pela Phoneutria sp representam a forma de araneísmo mais comumente observada no país.
  • Loxoscelismo: são descritas duas variedades clínicas:
    • Forma cutânea: é a mais comum, caracterizando-se pelo aparecimento de lesão inflamatória no ponto da picada, que evolui para necrose e ulceração.
    • Forma cutâneo-visceral: além da lesão cutânea, os pacientes evoluem com anemia, icterícia cutâneo-mucosa, hemoglobinúria. A insuficiência renal aguda é a complicação mais temida. O tratamento soroterápico está indicado nas duas formas clínicas do acidente por Loxosceles. Dependendo da evolução, outras medidas terapêuticas deverão ser tomadas.
  • Latrodectismo: quadro clínico caracterizado por dor local intensa, eventualmente irradiada. Alterações sistêmicas como sudorese, contraturas musculares, hipertensão arterial e choque são registradas.
 
Diagnóstico clínico

Visando a facilitar o raciocínio diagnóstico dos profissionais, foram resumidos nos Quadros 5 e 6, os principais sinais e sintomas dos acidentes por animais peçonhentos mais comuns. Observe-se que o diagnóstico clínico é o de mais fácil execução, baseando-se fundamentalmente no achado das alterações decorrentes das ações do veneno. Tem-se convencionado chamar de "provável" o acidente cujo diagnóstico é estabelecido por critérios clínicos (e eventualmente com algum suporte laboratorial, como a determinação do Tempo de Coagulação).

Tabela Tratamento Aranha 1

 

Tratamento soroterápico: os soros anti-peçonhentos são obtidos a partir da imunização de cavalos, inoculados com os respectivos venenos dos diferentes grupos de animais peçonhentos de importância médico-sanitária. São apresentados na forma líquida, em ampolas de concentrações definidas para cada um dos tipos. O prazo de validade dos soros é de 3 anos, se convenientemente armazenados em geladeira, a temperatura de 2 a 8 graus centígrados, devendo-se evitar seu congelamento.

Via de administração: a via preferencial para administração do soro antiveneno é a endovenosa (EV).

Reações adversas: precedendo a infusão do antiveneno, recomenda-se a utilização de anti-histamínico do tipo Prometazina, por via intramuscular (IM). Esse procedimento visa diminuir os riscos de reações alérgicas do tipo imediato, das quais a mais temida é o choque anafilático.

Nota: pela baixa capacidade em prever reações alérgicas, a prova intradérmica foi abolida da rotina, não sendo mais recomendada.

Doses: as quantidades de antiveneno a serem administradas estão na dependência da gravidade do envenenamento. No quadro são referidos os diferentes esquemas de doses recomendadas.

Tabela Tratamento Aranha 2

 

Se o número de ampolas em estoque for inferior ao recomendado, a soroterapia deve ser iniciada com a dose disponível enquanto se providencia o tratamento complementar.

 
Complicações
  • Ofidismo: os dados disponíveis revelam que cerca de 10% dos picados por Bothrops evoluem com necrose e/ou abscesso local. Cerca de 1% dos casos sofrem algum grau de amputação. A complicação mais temida é a insuficiência renal aguda (IRA), possivelmente causa maior de óbito, observada tanto nos acidentes crotálicos como botrópicos, sendo mais graves no segundo grupo. Ressalte-se que dentre os fatores estudados favorecem as complicações: a demora no atendimento; o emprego de torniquetes (ou garrotes); a manipulação cirúrgica precoce das lesões; os acidentes em crianças, gestantes e idosos.
  • Escorpionismo: casos convenientemente tratados são de boa evolução, em geral sem complicações posteriores.
  • Araneísmo: os acidentes por loxosceles, com lesões necróticas de pele, têm evolução longa dada a lentidão na cicatrização da úlcera. Alguns estudos têm demonstrado que a cicatrização se completa de 4 a 8 semanas após a picada. Cicatrizes retráteis ou inestéticas podem necessitar de cirurgia reparadora. Acidentes por Phoneutria ou Latrodectus são de evolução aguda e, após o tratamento, não deixam sequelas.
 
Acidentes
 
Acidente loxoscélico - aranha-marrom

O loxoscelismo (acidente por aranha-marrom), tem sido descrito em vários continentes. Corresponde à forma mais grave de araneísmo no Brasil. A maioria dos acidentes notificados se concentra no sul do país, particularmente Paraná e Santa Catarina. O acidente atinge mais comumente adultos, com discreto predomínio em mulheres, ocorrendo no intradomicílio. Observa-se uma distribuição centrípeta das picadas, acometendo mais a coxa, tronco ou braço.

Aranha-marrom

 

Aranha-marrom (Loxosceles)

Aranha pouco agressiva, com hábitos noturnos.
Encontra-se em pilhas de tijolos, telhas, beira de barrancos; nas residências, atrás de móveis, cortinas e eventualmente nas roupas.

 
 
Ações do veneno

Parece que o componente mais importante é a enzima esfingomielinase-D que por ação direta ou indireta, atua sobre os constituintes das membranas das células, principalmente do endotélio vascular e hemácias, ativando as cascatas do sistema complemento, da coagulação e das plaquetas, desencadeando intenso processo inflamatório no local da picada, acompanhado de obstrução de pequenos vasos, edema, hemorragia e necrose focal. Nas formas mais graves, acredita-se que a ativação desses sistemas leva a hemólise intravascular.

 
Quadro clínico

A picada quase sempre é imperceptível e o quadro clínico se apresenta sob duas formas:

  • Forma cutânea: 87 a 98% dos casos. Instalação lenta e progressiva. Sintomas: dor, edema endurado e eritema no local da picada, pouco valorizados pelo paciente. Acentuam-se nas primeiras 24 a 72 horas após o acidente, podendo ser:
    • Lesão incaracterística: bolha de conteúdo seroso, edema, calor e rubor, com ou sem dor em queimação.
    • Lesão sugestiva: enduração, bolha, equimose e dor em queimação.
    • Lesão característica: dor em queimação, lesões hemorrágicas focais, mescladas com áreas pálidas de isquemia (placa marmórea) e necrose.

As picadas em tecido frouxo, como na face, podem apresentar edema e eritema exuberantes. A lesão cutânea pode evoluir para necrose seca (escara) em cerca de 7 a 12 dias, que, ao se destacar em 3 a 4 semanas, deixa úlcera de difícil cicatrização.

As mais comuns alterações do estado geral: astenia, febre nas primeiras 24 horas, cefaleia, exantema morbiliforme, prurido generalizado, petéquias, mialgia, náuseas, vômito, visão turva, diarreia, sonolência, obnubilação, irritabilidade, coma.

  • Forma cutâneo-visceral (hemolítica): 1 a 13% dos casos. Além do comprometimento cutâneo, observam-se manifestações clínicas decorrentes da hemólise intravascular como anemia, icterícia e hemoglobinúria, que se instalam geralmente nas primeiras 24 horas. Petéquias e equimoses, relacionadas à coagulação intravascular disseminada (CIVD). Casos graves podem evoluir para insuficiência renal aguda, que é a principal causa de óbito no loxoscelismo.
 
Classificação

Com base nas alterações clínico-laboratoriais e identificação do agente causal, o acidente loxoscélico pode ser classificado em:

  • Leve: lesão incaracterística sem alterações clínicas ou laboratoriais e com identificação da aranha causadora do acidente. Paciente deve ser acompanhado pelo menos por 72 horas, caso pode ser reclassificado.
  • Moderado: lesão sugestiva ou característica, mesmo sem identificação do agente causal, com ou sem alterações sistêmicas do tipo rash cutâneo, cefaleia e mal-estar.
  • Grave: lesão característica e alterações clínico-laboratoriais de hemólise intravascular.
 
Complicações
  • Locais: infecção secundária, perda tecidual, cicatrizes desfigurantes.
  • Sistêmicas: principal: insuficiência renal aguda.
 
Exames complementares

Não há específicos.

  • Forma cutânea: hemograma com leucocitose e neutrofilia.
  • Forma cutâneo-visceral: anemia aguda, plaquetopenia, reticulocitose, hiperbilirrubinemia indireta, queda dos níveis séricos de haptoglobina, elevação dos níveis séricos de potássio, creatinina e ureia e coagulograma alterado.
 
Tratamento
  • Tratamento específico: soro antiloxoscélico (SALOx) ou Soro Antiaracnídico (SAAr) – Dados experimentais revelaram que eficácia da soroterapia é reduzida após 36 horas da inoculação do veneno. A utilização do antiveneno depende da classificação de gravidade. Ver o item Quadro-resumo.
  • Tratamento geral:
    • Corticoterapia: prednisona por via oral na dose de 40mg/dia para adultos e 1mg/Kg/dia para crianças, por pelo menos cinco dias.
    • Dapsone (DDS): em teste para redução do quadro local. 50 a 100mg/dia, via oral, por duas semanas. Risco potencial da Dapsone desencadear metemoglobinemia. Paciente deve ser acompanhado clínico-laboratorialmente durante administração da droga.
  • Suporte
    • Para as manifestações locais: analgésicos (dipirona), compressas frias, antisséptico local e limpeza da ferida (permanganato de potássio), se infecção secundária usar antibiótico sistêmico, remoção da escara só após delimitação da área de necrose, tratamento cirúrgico (manejo de úlceras e correção de cicatrizes).
    • Para as manifestações sistêmicas: transfusão de sangue ou concentrado de hemáceas quando anemia intensa, manejo da insuficiência renal aguda.

 

 
Acidente por Phoneutria - aranha armadeira

Aranha do gênero Phoneutria causa acidente denominado “foneutrismo”. Popularmente conhecida como aranha armadeira, devido ao fato de ao assumir comportamento de defesa, apoia-se nas patas traseiras, ergue as dianteiras e os palpos, abre as quelíceras, tornando bem visíveis os ferrões e procura picar. Pode atingir de 3 a 4cm de corpo e até 15cm de envergadura de pernas.

Hábitos noturnos, acidentes frequentes dentro de residências e nas suas proximidades, ao se manusearem material de construção, entulhos, lenha ou calçando sapatos. Também pode ser encontrada em bananeiras ou árvores com grandes folhagens. Acidentes mais observados em abril e maio, raramente levam a quadro grave. Picadas preferencialmente ocorrem em mãos e pés.

Aranha armadeira

 

Aranha armadeira (Phoneutria)
Aranha muito agressiva, com hábitos vespertinos e noturnos. São encontradas em bananeiras, folhagens, entre madeira e pedras empilhadas e no interior de residências

 
 
Ações do veneno

Peçonha de P.nigriventer causa ativação e retardo da inativação dos canais neuronais de sódio, que pode provocar despolarização das fibras musculares e terminações nervosas sensitivas, motoras e do sistema nervoso autônomo, favorecendo a liberação de neurotransmissores, principalmente acetilcolina e catecolaminas. Também isolados peptídeos que podem induzir a contração da musculatura lisa vascular e aumentar a permeabilidade vascular, independentemente da ação dos canais de sódio.

 
Quadro clínico

Predominam as manifestações locais. A dor imediata é o sintoma mais frequente, apenas 1% dos casos apresentam-se assintomáticos após a picada. Sua intensidade é variável, podendo se irradiar até a raiz do membro acometido. Outras manifestações que podem ocorrer são: edema, eritema, parestesia e sudorese no local da picada, onde podem ser encontradas as marcas de dois pontos de inoculação, priapismo, choque e edema pulmonar.

Os acidentes são classificados em Leve, Moderado e Grave. Ver o item Quadro-resumo.

 
Exames complementares e tratamento

Ver o item Quadro Resumo.

  • Obs. 1: deve ser evitado o uso de algumas drogas antagonistas dos receptores H1 da histamina, principalmente a prometazina (Fenergan), em crianças e idosos. Os efeitos tóxicos ou idiossincrásicos decorrentes do uso destes medicamentos podem determinar manifestações como sonolência, agitação psicomotora, alterações pupilares e taquicardia, que podem ser confundidas com as do envenenamento sistêmico.
  • Obs. 2: crianças e idosos, devido ao maior risco de desenvolverem manifestações sistêmicas de envenenamento, devem ser sempre observados, pelo menos por até 6 horas após o acidente.

 

 
Acidentes por Lycosa - aranha de jardim
Aranha de jardim

 

 

Acidentes por Lycosa ou aranha de jardim são frequentes, mas não constituem problema de saúde pública. Aranha errante, não constrói teia, encontrada em gramas e jardins.

Os acidentes causados por Lycosa são importantes para o diagnóstico diferencial de loxoscelismo, pois muitas vezes ocorrem no mesmo habitat.

 
 
Ações do veneno

Ação proteolítica local.

 
Quadro clínico

Em geral, os acidentes tem pequena repercussão clínica. Após a picada, há o surgimento de uma reação local não muito acentuada, como dor local discreta, edema e eritema leves, que ocorrem em menos de 20% dos casos. Há relatos de necrose superficial no local, mas sem consequências clínicas.

 
Tratamento

Não existe tratamento específico. Pode-se utilizar analgésicos e anti-histamínicos orais. Antissepsia e uso de corticoides tópicos.

 

 
Acidentes por caranguejeira
Aranha caranguejeira

A aranha caranguejeira (Mygalomorphae) possui variado colorido e tamanho, desde milímetros até 20cm de envergadura de pernas. Algumas são muito pilosas. Os acidentes são destituídos de importância médica, sendo conhecida a irritação ocasionada na pele e mucosas devido aos pelos urticantes, que algumas espécies liberam como forma de defesa. Os pelos urticantes podem estar concentrados na região posterior do abdome, de 10.000 a 20.000 pelos por mm.

 
 
Ações do veneno

Podem provocar relaxamento da musculatura estriada em camundongos. Alguns gêneros apresentaram, em animais de laboratório, veneno com ação semelhante ao da Phoneutria.

 
Quadro clínico

Dor no local da picada de pequena intensidade e curta duração, às vezes acompanhada de discreta hiperemia local. Não se conhece relato de acidentes graves. Do desprendimento dos pelos, ocorrem manifestações cutâneas e das vias respiratórias altas, provocadas por ação irritativa ou alérgica nos pacientes previamente sensibilizados.

Estudos revelam que os testes cutâneos apresentam intensa reação positiva e altos níveis séricos de IgE, demonstrando que a reação de hipersensibilidade aguda contribui para o quadro inflamatório provocados por estas aranhas.

 
Tratamento

Casos leves regridem espontaneamente e casos mais severos tratar com analgésico, epinefrina, anti-histamínico e corticoide. Não há tratamento específico.

 

 
Acidentes por latrodectismo - viúva-negra

É o acidente causado pela aranha do gênero Lactrodectus, popularmente conhecida como viúva-negra, flamenguinha ou aranha ampulheta. No Brasil, os acidentes ocorrem na região Nordeste, principalmente no Estado da Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte e Sergipe. Normalmente ocorrem quando são comprimidas contra o corpo.

Aranha viúva-negra

 

 

A fêmea apresenta o corpo com aproximadamente 1cm de comprimento e 3cm de envergadura de pernas, o macho de 3 a 6mm, não é causador de acidentes. Habitam jardins, parques, gramados e plantações e podem ocultar-se nas residências. Têm hábitos sedentários, fazem teias irregulares, vivem de forma gregária e não são agressivas.

 
 
Ações do veneno

Atua sobre terminações nervosas sensitivas provocando quadro doloroso no local da picada. Sua ação sobre o sistema nervoso autônomo leva à liberação de neurotransmissores adrenérgicos e colinérgicos e, na junção neuromuscular pré-sináptica, altera a permeabilidade aos íons sódio e potássio. Não há registro de óbitos.

 
Quadro clínico

Dor local de intensidade variável, tipo mialgia, evoluindo para sensação de queimação (15 a 60min após o acidente). Lesões puntiformes, 1 ou 2, com 1 a 2mm e edema discreto. Hiperestesia na área da picada, placa urticariforme, infartamento ganglionar. Frequentemente tremores, contrações espasmódicas dos membros, sudorese local, ansiedade, excitabilidade, insônia, cefaleia, prurido, eritema de face e pescoço. Contratura facial e trismo dos masséteres (“fáscies latrodectísmica”). Opressão precordial com sensação de morte eminente, taquicardia inicial e hipertensão seguidas de bradicardia.

 
Tratamento
  • Tratamento específico: o soro antilatrodectus (SALatr) é indicado nos casos graves, 1 a 2 ampolas IM. A melhora do paciente ocorre de 30min a 3h após a soroterapia.
  • Tratamento sintomático: utilização de compressas mornas no local e analgésicos. Pode ser utilizado Diazepan, Gluconato de Cálcio e Prometazina. Quando a dor é muito intensa, pode-se usar Meperidina ou Morfina. O tempo de permanência hospitalar, para doentes não submetidos a soroterapia deve ser no mínimo de 24 horas.

 

 
Quadro-resumo

Quadro-resumo das manifestações clínicas e tratamento nos acidentes por artrópodos de importância toxicológica no Paraná

Quadro-resumo tratamento aranha 1

 

​ Quadro-resumo tratamento aranha 2

 

 

 

 
Escorpiões
 
Escorpionismo
 
Aspectos epidemiológicos

São acidentes menos notificados que os ofídicos. Sua gravidade está relacionada à proporção entre quantidade de veneno injetado e massa corporal do indivíduo picado.

 
Agentes causais

As principais espécies do gênero Tityus responsáveis por acidentes estão relacionadas na tabela abaixo:

Tabela escorpião

 

1) Espécie partenogenética, em expansão nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Responsável pelos acidentes de maior gravidade registrados no país, incluindo óbitos.

 
Distribuição, morbidade, mortalidade e letalidade

São notificados anualmente, cerca de 8.000 acidentes, com uma letalidade variando em torno de 0,51%. Os acidentes por escorpiões são mais freqüentes no período de setembro a dezembro. Ocorre uma discreta predominância no sexo masculino e a faixa etária de 25 a 49 anos é a mais acometida. A maioria das picadas atinge os membros, havendo predominância do membro superior (mãos e dedos).

 
Aspectos clínicos

Nos acidentes escorpiônicos, têm sido relatadas manifestações locais e sistêmicas.

  • Manifestações locais: caracterizam-se fundamentalmente por dor no local da picada, às vezes irradiada, sem alterações do estado geral. O tratamento sintomático para o alívio da dor, feito através da utilização de analgésicos ou bloqueio local com anestésicos, consiste na principal medida terapêutica que corresponde à maioria dos acidentes registrados no país.
  • Manifestações sistêmicas: menos frequentes, caracterizam os acidentes como moderados ou graves. Além da dor local, alterações sistêmicas como hiper ou hipotensão arterial, arritmias cardíacas, tremores, agitação psicomotora, arritmias respiratórias, vômitos e diarréia. O edema pulmonar agudo é a complicação mais temida. Nesses casos, além do combate à dor e tratamento de suporte, está indicada a soroterapia. A gravidade no escorpionismo depende de fatores como a espécie e o tamanho do escorpião causador do acidente, da massa corporal do acidentado, da sensibilidade do paciente ao veneno, da quantidade de veneno inoculada e do retardo no atendimento.

 

 
Acidentes
 
O que é escorpionismo

Os acidentes escorpiônicos (escorpionimso) ocorrem com freqüência e são potencialmente graves em extremos de faixa etária. 50% dos acidentes notificados provêm dos Estados de Minas Gerais e de São Paulo e a maioria em meses quentes e chuvosos. Os escorpiões de importância médica pertencem ao gênero Tityus e são: T.serrulatus, T.trivittatus, T.bahiensis e T.stigmurus. Registra-se grande dispersão do T.serrulatus devida reprodução por partenogênese. A maioria dos casos tem curso benigno. Letalidade é de 0,58%, os óbitos tem sido associados, com maior freqüência, a acidentes causados por T.serrulatus, ocorrendo mais comumente em crianças menores de 14 anos.

Os escorpiões inoculam o veneno pelo ferrão ou telson, localizado no último segmento da cauda. São animais carnívoros, alimentam-se principalmente de insetos, como baratas e grilos. Com hábitos noturnos, durante o dia estão sob pedras, troncos, entulhos, telhas, tijolos.

Os escorpiões são pouco agressivos e têm hábitos noturnos. Encontram-se em pilhas de madeira, cercas, sob pedras e nas residências. Duas espécies merecem maior atenção médica: T.serrulatus (amarelo) e T.bahiensis (marrom).

 
Ações do veneno

Estudos experimentais demonstraram que veneno bruto ou frações purificadas ocasiona dor local e efeitos complexos nos canais de sódio, produzindo despolarização das terminações nervosas pós-ganglionares, com liberação de catecolaminas e acetilcolina. Estes mediadores determinam o aparecimento de manifestações orgânicas decorrentes da predominância dos efeitos simpáticos ou parassimpáticos.

 
Quadro clínico

Acidentes por T.serrulatus são os mais graves. A dor local (ardor, queimação ou agulhada) pode ser acompanhada por parestesias, aumentar de intensidade à palpação e irradiar-se para a raiz do membro acometido. Ponto(s) de inoculação nem sempre são visíveis, na maioria dos casos, há apenas discreto eritema e edema, podendo-se observar também sudorese e piloereção local. Nos acidentes moderados e graves, principalmente em crianças, após minutos até poucas horas (2-3h), podem surgir manifestações sistêmicas.

 
Manifestações sistêmicas

Gerais: hipo ou hipertermia e sudorese profusa. Digestivas: náuseas, vômitos, sialorréia e, mais raramente, dor abdominal e diarreia. Cardiovasculares: arritmias cardíacas, hiper ou hipotensão arterial, insuficiência cardíaca congestiva e choque. Respiratórias: taquipnéia, dispneia e edema pulmonar agudo. Neurológicas: agitação, sonolência, confusão mental, hipertonia e tremores.

A gravidade do quadro clínico depende de vários fatores como espécie e tamanho do animal agressor, quantidade de veneno inoculado, número de picadas, massa corporal da vítima e sensibilidade ao veneno, tempo decorrido entre o acidente e o tempo de atendimento médico.

 
Tratamento e exames complementares

OBS: Bothriurus bonariensis (escorpiões pretos), são encontrados no RS, PR e outros estados. Muito comum em Curitiba; têm hábitos noturnos, escondem-se sob pedras, troncos podres, vivem próximos a construções, entulhos e lixo doméstico. Veneno tem baixa toxicidade, pode ocorrer dor local e manifestações de hipersensibilidade, podendo o paciente apresentar-se assintomático. O tratamento é sintomático com analgésicos e antihistamínicos.

Tabela Tratamento Escorpião

 

 

 
Lagartas e mariposas
 
Mariposas
Mariposa
Foto: Emanuel Marques da Silva

As mariposas são insetos que constituem a fase adulta das lagartas. No caso do gênero Lonomia, elas são observadas em maior quantidade nos meses mais quentes, vivendo aproximadamente 10 semanas
Desde a postura dos ovos nas folhas e troncos das árvores, até a fase adulta, as mariposas passam por várias fases, porém neste gênero, somente a lagarta pode causar perigo às pessoas.

 

 
Lagartas

 

Tronco
Foto: Emanuel Marques da Silva

As lagartas (taturanas, orugas ou lagartas de fogo), medem de 6 a 7cm de comprimento, têm o corpo revestido de espinhos ramificados (semelhante a um pinheiro) dispostos ao longo do corpo. A cor geral é marrom-claro-esverdeada ou marrom amarelada, com três listras longitudinais de cor castanho-escuro.

Há uma pequena mancha branca de contorno irregular no dorso do terceiro segmento torácico. São larvas que vivem agrupadas, alimentando-se de folhas, durante a noite. Quando em bloco, imitam o tronco da árvore parasitada, descendo em bloco para as partes mais baixas onde repousam durante o dia. Na época da transformação da lagarta para pupa, elas procuram ficar próximas do solo e das folhas secas provocando ai, o maior número de acidentes.

Estas lagartas foram encontradas em árvores silvestres, como cedro, figueira do mato, ariticum, aroeira e ipê e em árvores frutíferas como ameixeira, pereira, pessegueiro e abacateiro. Elas podem viver um período que varia de 3 a 6 meses, dependendo da oferta de alimento e das alterações climáticas.

 

 
Lonomias - acidentes
 
O perigo
Perigo
Arquivos SMS-Curitiba

 

Por ocasião do contato com os espinhos das lagartas, surge dor em queimação seguida de vermelhidão, inchaço, calor, mal estar , cefaléia, náuseas e vômito. As manifestações hemorrágicas podem aparecer entre 8 a 72 horas após o contato, sendo as mais comuns manchas escuras pelo corpo, sangramento pelo nariz, gengivas, urina e em ferimentos recentes. Os casos mais graves podem evoluir para insuficiência renal aguda e morte.

Considerações                                                

É nosso dever lembrar que os insetos são um elo muito importante na cadeia alimentar. O homem precisa saber conviver em harmonia com todos os animais, respeitando seu ecossistema, evitando assim graves acidentes.

 

 
Prevenção

 

Lagarta
Foto: Venilton Küchler
  • Prestar atenção nos troncos das árvores e na grama ao redor.
  • Observar se as folhas das árvores estão roídas.
  • Observar se existem pupas ou fezes no chão.
  • Utilizar camisas de mangas longas e calças nas atividades rurais.

Cuidado

  • Quando for coletar alguma lagarta para identificação, faça somente com as mãos protegidas com luvas grossas e com pinças

 

 
O que fazer em casos de acidentes
  • Procurar o Serviço de Saúde imediatamente / atendimento médico
  • Levar consigo algumas lagartas em frasco fechado, porém com ventilação e algumas folhas de planta para alimentação dos insetos.

Telefones Úteis

Curitiba: 
Centro de Controle de Envenenamento - CCE
Fone: (41) 0800410148
Londrina
Centro de Controle de Intoxicações - CCI
Fone: (43) 3371-2244
Maringá:
Centro de Controle de Intoxicações - CCI
Fone: (44) 3225-8484

 

 

 
Abelhas, vespas e formigas
 
Acidentes

A incidência de acidentes por Himenópteros é desconhecida, pertencem à ordem Himenóptera os únicos insetos que possuem ferrões verdadeiros, com três famílias de importância médica: Apidae (abelhas e mamangavas), Vespidae (vespa amarela, vespão e marimbondo) e Formicidae (formigas). Reações alérgicas ocorrem mais em adultos e nos profissionais expostos. Acidentes graves e mortes pela picada de abelhas africanizadas deve-se não pela diferença de composição de veneno, mas pela maior agressividade dessa espécie (ataques maciços).

 

Abelhas

 

Dentre as espécies que utilizam o aparelho de ferroar, há as que apresentam autotomia (auto-amputação) ou seja, quando ferroam perdem o ferrão e espécies que não apresentam autotomia, estas utilizam o aparelho de ferroar várias vezes. As que fazem autotomia geralmente injetam maior quantidade de veneno e morrem após a ferroada pela perda do aparelho e parte das estruturas do abdômen.

 
Ações do veneno

O veneno é composto por uma mistura complexa de substâncias químicas como peptídeos, enzimas e aminas biogênicas, que apresentam atividades farmacológicas e alérgicas. Os fatores alergênicos são enzimas como fosfolipases, hialuronidases, lipases e fosfotases, proteínas antigênicas que inoculadas durante a ferroada, iniciam respostas imunes responsáveis pela hipersensibilidade de alguns indivíduos e pelo início da reação alérgica. São agentes bloqueadores neuromusculares e possuem poderosa ação hemolítica, além de propriedades antiarrítmicas.

 
Quadro clínico

As manifestações clínicas que podem ocorrer são muito variadas, podendo ser classificadas em:

  • Alérgicas – desencadeadas até por uma picada
  • Tóxicas – quando centenas de picadas levam a uma síndrome de envenenamento, pacientes devem ser mantidos em UTI.
 
Manifestações
  • Manifestações locais: dor aguda local, que tende a desaparecer espontaneamente, vermelhidão, prurido e edema por várias horas ou dias.
  • Manifestações regionais: eritema, prurido, edema flogístico evolui para enduração local que aumenta em 24-48h, diminuindo nos dias subsequentes.
  • Manifestações sistêmicas: anafilaxia com início rápido (2-3min após picada). Cefaléia, vertigem e calafrios, agitação psicomotora, sensação de opressão torácica e outros sinais e sintomas tegumentares, respiratórios, digestivos, cárdio-circulatórios. Há relatos de manifestações alérgicas tardias.
 
Tratamento
  • Remoção dos ferrões: nos acidentes causados por enxame, a retirada dos ferrões da pele deverá ser feita por raspagem com lâmina e não pelo pinçamento de cada um deles, pois a compressão poderá espremer a glândula ligada ao ferrão e inocular no paciente o veneno ainda existente.
 
Dor

Quando necessária, a analgesia poderá ser feita pela Dipirona, via parenteral.

 
Reações alérgicas

O tratamento de escolha para as reações anafiláticas é a administração subcutânea de solução aquosa de adrenalina 1:1000, iniciando-se com a dose de 0,5ml, repetida duas vezes em intervalos de 10 minutos para adultos, se necessário. Em crianças, usa-se inicialmente 0,01ml/Kg/dose, podendo ser repetida 2 a 3 vezes, com intervalos de 30 minutos, desde que não haja aumento exagerado da frequência cardíaca.

Os glicocorticóides e anti-histamínicos não controlam as reações graves (urticária gigante, edema de glote, broncoespasmo e choque), mas podem reduzir a duração e intensidade dessas manifestações.

Para o alívio de reações alérgicas tegumentares, indica-se o uso tópico de corticóides e anti-histamínicos por via oral.

Manifestações respiratórias asmatiformes, devido à broncoespasmo, podem ser controladas com oxigênio nasal, inalações e broncodilatadores.

 
Medidas gerais de suporte

Manutenção das condições vitais e do equilíbrio ácido-básico. Como o choque anafilático, a insuficiência respiratória e a insuficiência renal aguda devem ser abordadas de maneira rápida e vigorosa.

 

 

 
Medidas de controle
 
Ofidismo

As medidas de controle individuais para os trabalhadores são regulamentadas por lei que obrigam o uso de botas de cano alto, perneiras e luvas. Dentre as medidas de prevenção coletiva, deve ser ressaltado que o peridomicílio e as áreas de estocagem de grãos devam ser mantidas limpas pois, havendo facilidade para a proliferação de roedores, atraem serpentes, que os utilizam como alimento. Deve ser ainda divulgado, junto às populações de risco, que animais como gansos, emas, seriemas, dentre outros, são ofiófagos e devem ser protegidos.

 
Escorpionismo e araneísmo

Limpeza periódica do peridomicílio, evitando-se acúmulo de materiais como lenha, tijolos, pedras para evitar alojamento e proliferação de escorpiões. Cuidados de higiene das residências, manejo adequado do lixo, vedação da soleira das portas são medidas gerais auxiliares importantes na prevenção de acidentes por aranhas e escorpiões. O uso de inseticidas no controle desses animais é muito discutido.

 

 
Prevenção de acidentes
 
Como prevenir acidentes com ofídios
  • Usar botinas com perneiras ou botas de cano alto no trabalho pois 80% das picadas atingem as pernas abaixo dos joelhos.
  • Usar luvas de couro nas atividades rurais e de jardinagem. Não colocar as mãos em buracos na terra, ocos de árvores, cupinzeiros, utilizando para isso um pedaço de pau ou uma enxada.
  • Examinar os calçados, pois serpentes podem refugiar-se dentro deles.
  • Vedar frestas e buracos em paredes e assoalhos.
  • Limpar as proximidades das casas, evitando folhagens densas junto delas.
  • Evitar acumulo de lixo, entulhos e materiais de construção.
  • Avaliar bem o local onde montar acampamentos e fazer piqueniques.
  • Preservar inimigos naturais (raposa, gambá, gaviões e corujas) e criar aves domésticas, que se alimentam de serpentes.
 
Como prevenir acidentes com aranhas e escorpiões
  • Usar calçados e luvas nas atividades rurais e de jardinagem.
  • Examinar e sacudir calçados e roupas pessoais, de cama e banho, antes de usá-las.
  • Examinar camas das paredes e evitar pendurar roupas fora de armários.
  • Não acumular lixo orgânico, entulhos e materiais de construção.
  • Limpar o domicílio, observando atrás de móveis, cortinas e quadros.
  • Vedar frestas e buracos em paredes, assoalhos, forros, meia-canas e rodapés. Utilizar vedantes em portas, janelas e ralos.
  • Limpar locais próximos das casas, evitando folhagens densas junto delas e aparar gramados.
  • Combater a proliferação de insetos, principalmente baratas e cupins, pois são alimentos preferidos dos aracnídeos.
  • Preservar os inimigos naturais e criar aves domésticas, por se alimentarem de aracnídeos.
 
Como prevenir acidentes com lagartas
  • Olhar, atentamente, para as folhas de troncos de árvores, evitando contato com as taturanas.
  • Verificar presença de folhas roídas, casulos ou pupas e fezes de lagartas no solo.
  • Usar luvas quando manipular troncos, árvores frutíferas ou em atividades de jardinagem.
 
Primeiros-socorros
  • Lavar o local da picada de preferência com água e sabão.
  • Não fazer cortes, perfurações, torniquetes, nem colocar produtos caseiros, pois estes agravam o envenenamento.
  • Manter o acidentado calmo, podendo oferecer água ou chá para beber.
  • Levar a vítima, rapidamente, para o serviço médico mais próximo, levando se possível o animal agressor, mesmo morto, para facilitar o diagnóstico.

Lembre-se: nenhum remédio caseiro substitui o soro antipeçonhento.

 

 
Programa Nacional de Controle de Acidentes por Animais Peçonhentos
 
Objetivo

O propósito do Programa Nacional de Controle de Acidentes por Animais Peçonhentos é o de diminuir a letalidade dos acidentes ofídicos e escorpiônicos, através do uso adequado da soroterapia e de diminuir o número de casos através da educação em saúde.

 
Notificação

Todo acidente por animal peçonhento atendido na Unidade de Saúde deve ser notificado, independentemente do paciente ter sido ou não submetido à soroterapia. Existe uma ficha específica, que se encontra disponível nas unidades de saúde e que deve ser corretamente preenchida por se constituir em instrumento fundamental para o conhecimento da abrangência desse tipo de agravo em nível local/regional, possibilitando o estabelecimento de normas de atenção adequadas à realidade local.

 
Investigação epidemiológica

Os casos isolados não requerem a investigação epidemiológica. Na ocorrência de vários casos associados, o serviço de vigilância deve investigar visando observar se existem áreas de desmatamento, os costumes culturais da comunidade e orientar sobre as medidas de prevenção.

 
Definição de caso
  • Suspeito: paciente com queixa de acidente por animal peçonhento, podendo apresentar sinais ou sintomas de envenenamento, tendo trazido ou não o agente causador do acidente para identificação.
  • Confirmado: paciente com evidências clínicas de envenenamento, podendo ou não ter trazido o animal causador do acidente. A confirmação do acidente pode ser feita com base em dados clínicos aliados ao reconhecimento do animal que provocou o acidente ou somente em achados clínicos. O diagnóstico de certeza se dá quando, além das alterações decorrentes do envenenamento, o animal causador do acidente foi trazido para reconhecimento. Entretanto, para efeito de tratamento e de vigilância epidemiológica, considera-se confirmado todos os casos que se enquadrem nas definições acima referidas.
 
Encerramento de caso
  • Ofidismo: na maioria dos casos não complicados, a alta ocorre, em média, de 4 a 7 dias após o acidente e respectivo tratamento. Nos casos complicados, a evolução do paciente estabelece a alta definitiva. O paciente deve ser orientado quanto à possibilidade de ocorrência da "doença do soro", de curso geralmente benigno e que os sintomas (febre, artralgia, adenomegalia, exantema) aparecem de 7 a 21 dias após a administração do soro antiveneno.
  • Escorpionismo e araneísmo: a alta pode ser dada após remissão do quadro local ou sistêmico, exceto nos acidentes necrotizantes pela aranha Loxosceles, nos quais a evolução clínica da lesão é muito lenta, podendo haver necessidade de procedimentos cirúrgicos reparadores.

 

 
Envenenamento infantil
 
Intoxicação aguda por agrotóxicos
 
Intoxicação por medicamentos

“Medicamento é o principal agente tóxico que causa intoxicação em seres humanos no Brasil, ocupando o primeiro lugar nas estatísticas do SINITOX desde 1994; os benzodiazepínicos, antigripais, antidepressivos, anti-inflamatórios são as classes de medicamentos que mais causam intoxicações em nosso País (44% foram classificadas como tentativas de suicídio e 40% como acidentes, sendo que as crianças menores de cinco anos – 33% e adultos de 20 a 29 anos – 19% constituíram as faixas etárias mais acometidas pelas intoxicações por medicamentos)”. 
In: Bortoletto, Maria Élide e Bochner, Rosany: Impacto dos Medicamentos nas Intoxicações Humanas no Brasil (Cad. Saúde Pública, RJ 15 (4)859869-out/dez. l999. 

 
Ansiolíticos e tranquilizantes
 
Benzodiazepínicos

Grupo de medicamentos que apresentam propriedades farmacológicas (ansiolíticas, sedativo-hipnóticas e/ou anticonvulsivantes) e efeitos tóxicos que parecem ser consequentes de sua ação direta sobre o Sistema Nervoso Central. Apesar de existirem diferenças significativas de farmacocinética entre seus numerosos compostos, não parece haver superioridade de um sobre outro quando se toma por base apenas a farmacocinética.

Em geral, os benzodiazepínicos (BZD) são rápida e completamente absorvidos por via oral. No entanto, alguns como clordiazepóxido e oxazepam levam horas para atingir concentrações sanguíneas máximas. A ligação proteica plasmática é variável e praticamente todos são metabolizados no fígado por oxidação e/ou conjugação, com formação de metabólitos, muitos dos quais ativos. A excreção é renal.

É possível classificar estes medicamentos em vários grupos, de acordo com sua meia-vida de eliminação: Ação muito curta – Midazolam (Dormonid); Ação curta – Alprazolam (Frontal), Lorazepam (Lorax, Mesmerim), Oxazepan (Clizepina; Ação Longa – Clordiazepóxido (Psicosedin, Limbitrol, Relaxil), Diazepam (Calmociteno, Diazepan, Diempax, Kiatrium, Valium), Flurazepam (Dalmadorm, Lunipax).

Estudos sugerem que os benzodiazepínicos interagem em um receptor específico com um modulador proteico endógeno que antagoniza a ligação com o GABA, potencializando os seus efeitos. Certos benzodiazepínicos estão associados com dependência e alguns produzem reações de abstinência mais intensas que outros.

Clínica da intoxicação aguda: absorção de dose excessiva está usualmente associada com sedação, sonolência, fala arrastada, diplopia, disartria, ataxia e confusão mental. Podem ocorrer depressão respiratória e hipotensão arterial. Na maioria dos casos a evolução é benigna, mas existem relatos de intensa depressão respiratória e coma e inclusive de óbitos após o uso de benzodiazepínicos de ação muito curta, especialmente quando administrados por via intravenosa. Crianças, idosos e pacientes com insuficiência cardiorrespiratória são mais sensíveis e o álcool e barbitúricos podem potencializar os efeitos tóxicos.

Tratamento: é essencial assistência respiratória, manter vias aéreas, oxigênio se necessário. Monitorar respiração, pressão arterial, sinais vitais. Ingesta: Para BZD de ação muito curta, nunca induzir vômitos, início de depressão e coma podem ser rápidos. Para BZD de ação longa, induzir vômitos somente em poucos minutos da ingestão. Paciente consciente, dar via oral carvão ativado, catárticos. Paciente inconsciente e/ou superdosagem: lavagem gástrica com intubação prévia para prevenir aspiração. Administrar antídoto Flumazenil – reverte sedação dos BZD, há melhora parcial dos efeitos respiratórios. Hipotensão: administrar fluidos endovenosos, manter equilíbrio hidroeletrolítico, vasopressores se necessário. Medidas sintomáticas e de manutenção.

 
Fenotiazínicos

Os derivados da fenotiazina, a princípio utilizados em terapêutica como antissépticos urinários e anti-helmínticos, representam um dos mais importantes grupos de medicamentos empregados nas mais variadas afecções neurológicas e exercem uma ação farmacológica bastante extensa, incluindo efeitos sedativos e potencialização dos efeitos de sedativos, narcóticos e anestésicos; ação antiemética; efeitos sobre a regulação da temperatura corporal; efeitos bloqueadores colinérgicos e adrenérgicos (tipo alfa); efeitos anti-histamínicos e anti-serotonínicos; efeitos antipruriginosos; efeitos analgésicos e outros. Estas propriedades são as responsáveis pelas chamadas reações colaterais, que se tornam mais acentuadas nos casos de intoxicação.

Em virtude de sua alta eficácia terapêutica, seu consumo é muito grande e generalizado, com tendência a aumentar continuamente e como decorrência, o número de intoxicações.

Os derivados da fenotiazina podem se divididos em três grupos: -Derivados Piperazínicos: flufenazina (Anatensol, Motival), trifluoperazina (Stelazine, Stelapar), perfenazina ( Mutabon). – Derivados Alifáticos: clorpromazina (Amplictil), promazina (Metilsedor), levomepromazina (Neozine). –Derivados Piperidínicos: tioridazina (Melleril)

Estes grupos diferem em potência por mg e propensão em causar efeitos colaterais específicos. Em geral, quanto mais potente o fenotiazínico, maior a propensão em determinar reações extrapiramidais e quanto menor a potência, maior a propensão em determinar efeitos secundários tipo autonômicos, sedação ou convulsões.

São geralmente bem absorvidos pelo tubo gastrointestinal e parenteralmente. Após absorção, são rapidamente distribuídos pelos tecidos; 70% da dose administrada é logo removida da circulação porta pelo fígado.

Clínica da iIntoxicação aguda: risco cardiovascular e de depressão do SNC. Síndrome neuroléptica maligna é potencialmente fatal e pode ocorrer com doses terapêuticas e após poucos dias de uso. Sedação, miose, hiper ou hipotensão, taquicardia, retenção urinária, xerostomia, ausência de sudorese. Sintomas extrapiramidais. Convulsão, coma, falência respiratória, prolongamento do intervalo QT, arritmias, distúrbios da temperatura.

Tratamento: esvaziamento gástrico por lavagem gástrica se superdosagem até 12 horas após ingesta (fenotiazinas reduzem a motilidade gástrica). Indução do vômito se ingesta recente (minutos) em paciente alerta e assintomático, evitar se após algumas horas (convulsões ou reações distônicas de cabeça e pescoço podem resultar em aspiração). Carvão ativado a cada 2 ou 3 horas e catártico salino. Monitorização respiratória e cardiovascular. Se hipotensão/choque – Trendelemburg, Ringer Lactato EV, vasopressores de escolha (agonistas alfa-adrenérgicos): noradrenalina, fenilefrina, metoxamina, em infusão contínua EV. Não utilizar beta-adrenérgicos. Arritmias ventriculares: fenitoína, 10 a 15mg/Kg, lentamente, ou lidocaína 1mg/Kg EV ou marcapasso. Convulsões: diazepan seguido de fenitoína. Sintomas extrapiramidais: difenidramina EV (2 mg/Kg até o máximo de 50mg/dose em administração lenta) ou mesilato de benztropina (0,5mg/Kg em crianças, 2mg em adultos), biperideno 2mg IM ou EV lento a cada 30 min., se necessário até 4 doses por dia. Síndrome neuroléptica maligna: resfriamento corporal, diazepan EV, dantrolene. Paciente sintomáticos devem ficar internados no mínimo 24 h após o ECG normal; assintomáticos devem ser observados no mínimo por 4 horas.

 
Butirofenonas e tioxantenos

Neurolépticos de largo uso em psiquiatria. Grupo das Butirofenonas: droperidol(Droperidol), haloperidol (Haldol, Haloperidol), penfluridol (Semap), pimozide (Orap). Exercem forte antagonismo dopaminérgico central e tem pouca ação anticolinérgica. Grupo dos Tioxantenos: tioxeno (Navane).

De um modo geral são bem absorvidos por via oral, mas sofrem metabolização de primeira passagem. Apresentam significativa ligação proteica plasmática. A metabolização é hepática e a eliminação é urinária.

Clínica da intoxicação aguda: SNC: rigidez e espasmos musculares, pseudoparkinsonismo, distonias, acatisias, discenisia tardia persistente, agitação ou depressão, cefaléia, confusão, vertigem, síndrome neuroléptica maligna. SCV: hipotensão ortostática, prolongamento do intervalo QT, taquicardia. Hipertermia.

Tratamento: em geral, é semelhante ao realizado nas demais intoxicações agudas por neurolépticos e descrito com maiores detalhes na intoxicação por fenotiazínicos.

 
Antidepressivos tricíclicos

Antidepressivos tricíclicos (ADT) tem potente efeito sedativo. Uso amplo em depressão melancólica e em alguns casos de depressão atípica. São exemplos de ADT: amitriptilina (Tryptanol, Limbitrol), amineptina (Survector), imipramina (Tofranil), nortriptilina (Motival). São rapidamente absorvidos por via oral, com elevada união a proteínas plasmáticas. Metabolismo hepático, eliminação renal em vários dias.

Efeitos adversos: tontura, prejuízo na função cognitiva, fraqueza, fadiga, precipitação de psicose ou mania, tremores, apetite aumentado, ganho de peso, sudorese, cafaléia, boca seca, constipação, retenção urinária, visão borrada, exacerbação de glaucoma.

Clínica da intoxicação aguda: letargia, coma ou convulsões, acompanhadas por prolongamento do intervalo QRS ao ECG. Excitação seguido de coma, com depressão respiratória, hiporreflexia, hipotermia e hipotensão. Marcantes efeitos anticolinérgicos.

Tratamento: complexo. Lavagem gástrica, seguida de carvão ativado em uso repetido e catártico salino. Não induzir êmese pelo risco de convulsões. Tratamento sintomático e suportivo. Alcalinização, anticonvulsivantes (Fenitoína). Observação mínima de 6 horas em todos os pacientes.

 

 
Anticonvulsionantes
 
Barbitúricos

Depressores não seletivos do SNC, deprimem córtex sensorial, reduzem atividade motora, alteram função cerebelar. Ação, principalmente quando associada, com capacidade de potenciar ação inibitória sináptica mediada pelo GABA. 

Barbitúricos não possuem efeito analgésico. Induzem desde excitabilidade, sedação leve, incoordenação motora até coma profundo. Em dose terapêutica alta ocorre anestesia. Uso continuado pode causar tolerância e dependência.

Divididos em três grupos, de acordo com o aparecimento e duração dos efeitos: - Duração curta: Pentobarbital, Secobarbital; - Duração Intermediária: Amobarbital, Butabarbital; - Duração longa: Fenobarbital, Mefobarbital, Prominal.

Clínica da intoxicação aguda: depressão do SNC e cardiovascular, coma. SNC: sonolência, letargia, confusão, delírio, dificuldade de fala, diminuição ou perda dos reflexos, ataxia, nistagmo, hipotermia, depressão respiratória. SCV: hipotensão, taquicardia, choque. Gastrointestinal: diminuição do tônus e motilidade, pode compactar comprimidos. Óbito por insuficiência cardiorespiratória ou secundária a depressão de centros medulares vitais.

Tratamento: nos casos graves é complexo. Assistência respiratória, manter vias aéreas. Monitorização respiratória e cardiovascular. Corrigir hipovolemia. Ingesta/esvaziamento gástrico: êmese só em poucos minutos após ingesta. Lavagem gástrica com intubação (previne aspiração) até 24 horas ou mais, lavado pode ser feito com sonda mais larga ou por endoscopia para remover conteúdo. Carvão ativado seriado, catártico salino. Manter equilíbrio hidroeletrolítico, pode ser necessário uso de vasopressores. Alcalinização urinária. Avaliar função renal, eletrólitos, gasometria, pH urinário. Paciente com insuficiência renal necessário hemodiálise. Medidas sintomáticas e de manutenção. 

 
Carbamazepina

Anticonvulsivantes com discretos efeitos sedativos, utilizado no tratamento de neuralgia do trigêmio. Absorção lenta e errática por via oral, há diminuição da motilidade intestinal decorrente das propriedades anticolinérgicas do medicamento. Metabolizada no fígado, excretada pela urina e pequena excreção fecal. A utilização prolongada do medicamento pode ocasionar reações colaterais e secundárias variadas: diplopia, distúrbios visuais, sonolência, parestesias, distúrbios de equilíbrio, leucopenia, neutropenia, erupções cutâneas e outros.

São exemplos de nomes comerciais: Tegretol, Tegretard.

Clínica da intoxicação aguda: distúrbios neurológicos por depressão do SNC: ataxia, nistagmo, oftalmoplegia, midríase, taquicardia sinusal. Casos graves podem evoluir com mioclonias, convulsões, coma e parada respiratória.

Tratamento: nos casos de ingestão recomenda-se esvaziamento gástrico, que deve ser realizado mesmo decorridas muitas horas após. É preferível lavagem gástrica em serviço bem equipado, em virtude de possível e inesperado aparecimento de depressão neurológica. Administração seriada de carvão ativado a cada 4 horas. Tratar convulsões com diazepam, manter via aérea permeável, ventilação assistida, se necessário, tratar arritmias. Tratamento da hipotensão arterial com correção do volume e drogas vasopressoras (dopamina, norepinefrina). Filtro de carvão ativado pode ser útil nos casos graves que não responderem ao tratamento de suporte. Não há antídoto específico. Diurese forçada, diálise peritonial e hemodiálise não são eficazes. Pacientes assintomáticos devem ser observados por no mínimo 6 horas após ingesta. Pacientes graves devem ser observados em UTI até 24 horas após terem se mantido estáveis. 

 
Fenitoínas

Fenitoína ou difenilidantoína é medicamento usado há longo tempo como anticonvulsivante e mais recentemente, por via parenteral, no tratamento de distúrbios do ritmo cardíaco. Absorção por via oral é lenta e errática e quando ingerida em grandes doses, pode ser mais demorada. Metabolização hepática e excreção renal.

Exemplos de nomes comerciais: Epelin, Fenitoína, Dialudon, Hidantal. 

Clínica da intoxicação aguda: nistagmo, que inicialmente é horizontal e a seguir vertical; sonolência de intensidade progressiva, ataxia, diplopia, disartria, tremores, distúrbios do comportamento, confusão mental, náuseas, vômitos e hirsutismo. Coma profundo não é comum. São consideradas reações de hipersensibilidade: eritema multiforme, síndrome de Stevens-Johnson, febre, doença do soro, discrasias sangüíneas e insuficiência renal. Descrevem-se também reações paradoxais, com aumento das convulsões sem outros sinais de intoxicação aguda.

Toxicidade cardíaca frequente após infusão intravenosa rápida ou ingestão de doses muito grandes: arritmias e bradicardia sinusal, fibrilação atrial, bloqueio incompleto de ramo direito e hipotensão arterial. Casos mais graves: fibrilação ventricular e assistolias, evoluindo para óbito.

Tratamento: ingestão: esvaziamento gástrico mesmo decorridas várias horas. Paciente torporoso: lavagem gástrica em serviço bem equipado. Administrar carvão ativado. Medidas dialisadoras não encontram justificativa. Possível eficácia da plasmaferese. O tratamento é essencialmente sintomático e de suporte, incluindo correção dos distúrbios hidroeletrolíticos e assistência respiratória e cardiocircu

 
Ácido valproico

Ácido valproico e Valproato de sódio são medicamentos sintéticos não relacionados quimicamente à maioria dos anticonvulsivantes. Exemplos de nomes comerciais: Depakene, Valpakine, Valprin.

Absorção por via oral é rápida, observando-se níveis máximos sanguíneos 1 a 4 horas após ingestão. Ligação proteica significativa. Metabolização hepática e excreção renal.

Clínica da intoxicação aguda: distúrbios neurológicos incluindo confusão mental, sonolência, torpor e coma. Hiperatividade, movimentos mioclônicos e convulsões. A evolução fatal, embora excepcional, pode ocorrer por depressão respiratória e parada cardíaca. 

Tratamento: ingestão: esvaziamento gástrico e administração de carvão ativado. Tratamento sintomático e de suporte. Não há indicação para medidas dialisadoras. Possíveis bons resultados da Naloxona, mas indicação é discutível.

Intoxicação crônica: descreve-se uma associação entre o uso crônico de ácido valproico com o desenvolvimento de hepatotoxicidade e Síndrome de Reye. Os distúrbios hepáticos são evidenciados por uma simples elevação dos níveis de transaminases sem sintomatologia, até um quadro característico de Síndrome de Reye, com necrose hepática centrolobular, hiperamoniemia e encefalopatia. Descrita também hepatite tóxica fulminante e irreversível, sem sintomatologia da Síndrome de Reye. Admite-se que crianças com menos de 2 anos, especialmente as submetidas à terapêutica anticonvulsivante múltipla, incluindo ácido valproico, apresentam maiores riscos de desenvolver lesão hepática. O tratamento, além da interrupção da droga, é sintomático e de suporte.

 

 
Descongestionantes
 
Descongestionantes nasais

Os descongestionantes nasais tópicos que apresentam riscos de intoxicação aguda são geralmente constituídos por um simpatomimético em apresentação isolada ou associada com anti-histamínicos e antibióticos. Utilizados como vasoconstritor para reduzir edema e congestão de mucosas nasal e ocular. Uso deve ser controlado em hipertensos, diabéticos e pacientes com hipertireoidismo. Uso crônico causa congestão de rebote em mucosas.

Os simpatomiméticos mais comuns são: oximetazolina (Afrin); fenoxazolina (Aturgil); nafazolina, tirotricina (Efedran, Nasoinstil);cloreto de sódio, benzalcônio (Rinosoro, Sorinal, Nasoflux, Sorine); nafazolina, difenidramina, neomicina (Penetran, Alergotox Nasal, Suspirin);outros.

Clínica da intoxicação aguda: A intoxicação aguda pode ocorrer por ingestão ou pela aplicação nasal de doses excessivas. Intoxicação por nafazolina, que é a mais freqüente: náuseas, vômitos, cefaléia, rubor de pele, sudorese, irritabilidade, inquietude, aumento da pressão arterial, distúrbios cardíacos como extra-sístoles e outras arritmias podem aparecer. Casos graves: depressão do SNC, hipotermia, bradicardia, dilatação pupilar, sonolência e coma; distúrbios respiratórios com respiração irregular ou bradipnéia com períodos de apnéia. Descritos em lactentes pequenos, quadros aparentemente de hipersensibilidade em que pós aplicação tópica de doses normais do medicamento observam-se durante algumas horas sonolência, letargia e respiração lenta.

Tratamento: sintomático e de suporte. Esvaziamento gástrico/lavagem gástrica não é útil devido à rápida absorção do medicamento e apresentação disponível é líquida. Carvão ativado em ingesta precoce (discutível). Não provocar êmese pelo risco de depressão do SNC. Monitorização dos sinais vitais. Suporte ventilatório e hemodinâmico. Pode ser usada Naloxona. Casos graves: UTI para controle dos distúrbios cardiovasculares e respiratórios.

 
Descongestionantes sistêmicos

São também chamados de antigripais, são produtos de largo uso popular para tratamento de resfriados, gripes e infecções de vias aéreas superiores. Apesar de composição variada, a maioria inclui , na fórmula, simpatomiméticos e anti-histamínicos.

São alguns exemplos de descongestionantes sistêmicos e seus principais componentes: triprolidina, psedo-efedrina (Actifedrin); pirilamina, cloridrato de efedrina ( Benegrip); clorfeniramina, Vitamina C (Benegrip Xarope Infantil);clorfeniramina, metoxifenamina (Cheracap); cinarizina, fenilefrina, pentoxiverina (Coldrin); dextroclorfeniramina, cloridrato de fenilefrina (Coristina D); cloridrato de fenilefrina, carbinoxamina (Gripenil); maleato de dimentideno, trivietilrutina, Vit C, paracetamol, cloridrato de fenilefrina (Trimedal); (Bialerge); (Descon); (Naldecon).

Intoxicação frequente, principalmente em crianças, por largo uso e falsa impressão de inocuidade. Apesar da dosagem relativamente baixa dos componentes, podem ocorrer intoxicações graves. Relatados casos de abuso para obtenção de efeitos psíquicos e sensoriais. Absorção irregular pelo trato gastro-intestinal, metabolismo hepático e intestinal, excreção renal.

Clínica da intoxicação aguda: quadro tóxico depende da composição relativa dos simpatomiméticos e anti-histamínicos. Os distúrbios produzidos por doses excessivas dos principais componentes são os seguintes: sonolência, cefaléia, tonturas, vômitos, taquicardia ou bradicardia, palpitação, bloqueio A-V, hipertensão arterial, tremores, distúrbios neuropsíquicos incluindo inquietude, irritabilidade, agressividade, confusão mental, convulsões, alucinações e até quadros paranóides.

Tratamento: nos casos de ingestão, recomenda-se esvaziamento gástrico, mesmo decorridas várias horas, pois a maioria dos descongestionantes sistêmicos contêm anti-histamínicos e devido ao seu efeito anticolinérgico, podem retardar a absorção. Administrar carvão ativado, catárticos salinos. Manter vias aéreas permeáveis. Tratar hipertensão e arritmias, monitorar sinais vitais e realizar ECG por 4 a 6 horas após intoxicação. O tratamento é sintomático e suportivo. Bradicardia pode ser tratada com atropina. Ectopias ventriculares são melhor tratadas com propranolol, devendo-se evitar quinidina e antiarrítmicos da mesma classe.

 

 

 
Artigos científicos sobre animais peçonhentos

Epidemiological surveillance of distribution of the caterpillar Lonomia obliqua Walker, 1855, in the State of Paraná, Brazil
Gisélia Burigo Guimarães Rubio
Divisão de Zoonoses e Animais Peçonhentos,Centro de Saúde Ambiental . Rua Piquiri 170, Curitiba, PR 80230-140, Brasil e-mail sesacsa@pr.gov.br  

Por Emanuel Marques da Silva - Dissertação apresentada com vistas à obtenção do título de Mestre em Ciências na área de Saúde Pública.

Rosany Bochner 1, Claudio José Struchiner2
1Centro de Informação Científica e Tecnológica, Fundação Oswaldo Cruz. Av. Brasil 4365, Rio de Janeiro, RJ 21045-900, Brasil. rosany@cict.fiocruz.br .2 Programa de Computação Científica, Fundação Oswaldo Cruz. Av. Brasil 4365, Rio de Janeiro-RJ 21045-900, Brasil.stru@malaria.procc.fiocruz.br

Celina Schmidel Nunes1, Paula Dias Bevilacqua2  ,Cássius Catão Gomes Jardim1
1 Distrito Sanitário, Noroeste, Secretaria Municipal da Saúde.Avenida Dom Pedro II 307, Bairro Carlos Prates,

Euscorpius — Occasional Publications in Scorpiology. 2003, No. 4
Victor Fet1, Benjamin Gantenbein2, Alexander V. Gromov3, Graeme Lowe4 and Wilson R. Lourenço 5
1Department of Biological Sciences, Marshall University, Huntington, West Virginia 25755-2510, USA. 2Institute of Cell, Animal and Population Biology, University of Edinburgh, West Mains Road, Edinburgh
EH9 3JT, United Kingdom. 3Institute of Zoology, Al-Farabi 93, Akademgorodok, Almaty 480060, Kazakhstan. 4Monell Chemical Senses Center, 3500 Market St., Philadelphia, Pennsylvania 19104-3308, USA. 5Département de Systématique et Evolution, Section Arthropodes (Arachnologie), Muséum National d’Histoire Naturelle, 61, rue de Buffon, 75005 Paris, France.

Marta L. Fischer a,b,c João Vasconcellos-Netoc
a Departamento de Biologia, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Av. Silva Jardim 1664/1101 CEP. Curitiba 80250-200, Brazil. b Núcleo de Estudos do Comportamento Animal-Grupo de Pesquisa Biologia ambiental CNPq/PUCPR, Brazil. c Departamento de Zoologia Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) C.P. 6109 Campinas, S.P. CEP 13083-970, Brazil.

Candido D. M.1; Lucas S.1 - Laboratório de Artrópodes, Instituto Butantan

Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical
35(4): 359-363, jul-ago, 2002.
Marcely Regina Martins Soares1 , Cristiano Schetini de Azevedo1 and Mário De Maria1

1. Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG.

Endereço para correspondência: Dra Marcely Regina Martins Soares. Laboratório de Aracnologia/Depto de Zoologia/ICB/UFMG. Av. Antônio Carlos 6627, Pampulha, 31270-907 Belo Horizonte, MG, Brasil. Tel: 55 31 3499-2916; Fax: 55 31 3499-2899. E-mail: aracnologia_ufmg@yahoo.com.br

Envenomation by Tityus stigmurus (Scorpiones; Buthidae) in Bahia, Brazil
Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 33(3):239-245, mai-jun, 2000.
Rejâne Maria Lira-da-Silva, Andréa Monteiro de Amorim e Tania Kobler Brazil
Laboratório de Animais Peçonhentos do Departamento de Zoologia do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil. Endereço para correspondência: Profª Rejâne Maria Lira da Silva. Deptº de Zoologia/Instituto de Biologia/UFBA, Campus Universitário de Ondina, 40170-210 Salvador, BA, Brazil.
Tel: 55 71 247-3810/247-3744; fax: 55 71 245-6909.e-mail: rejane@ufba.br

J. Venom. Anim. Toxins v.7 n.1 Botucatu 2001 
W. R. Lourenço - Laboratoire de Zoologie (Arthropodes), Muséum National d'Histoire Naturelle, Paris, France.

J. Venom. Anim. Toxins v.6 n.2 Botucatu 2000 
L. de Sousa , P. Parrilla-Alvarez , M. Quiroga
1 Grupo de Biomedicina Aplicada (GBA), Centro de Investigaciones en Ciencias de la Salud (CICS), Universidad de Oriente, Núcleo de Anzoátegui, Puerto La Cruz, Venezuela; 2 Postgrado en Biología Aplicada, Escuela de Ciencias, Universidad de Oriente, Núcleo de Sucre, Cumaná, Venezuela and 3 Laboratorio de Alacranología, Escuela de Medicina, Universidad de Oriente, Núcleo de Bolívar, Ciudad Bolívar, Venezuela.

J. Venom. Anim. Toxins v. 2 n. 2 Botucatu 1996 
V. R. D. von Eickstedt , L. A. Ribeiro , D. M. Candido , M. J. Albuquerque , M. T. Jorge
1 Laboratory of Venomous Arthropods of the Butantan Institute, State of São Paulo, Brazil; 2 Vital Brazil Hospital of the Butantan Institute, State of São Paulo, Brazil; 3 State of São Paulo Health Department, Brazil; 4 Federal University of Uberlândia, State of Minas Gerais, Brazil.

J. Venom. Anim. Toxins v. 1 n. 2 Botucatu 1995
W.R. Lourenço , O. Cuellar 2.
1 Société de Biogéographie, Paris, France, 2 Department of Biology, The University of Utah, 201 Biology Building, Salt Lake City, Utah, U.S.A.

 

Acesse o Sinitox, o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).