(Aranhas) Aspectos Clínicos e Epidemiológicos - página 1


Araneísmo

1. Aspectos Epidemiológicos
É o acidente menos grave e a grande maioria dos casos notificados são provenientes das regiões Sul e Sudeste, o que sugere que nas outras regiões podem ocorrer casos sem que haja registro.

Agentes Causais
Phoneutria nigriventer (aranha-armadeira): responsável pela maioria dos acidentes causados por aranhas na cidade de São Paulo.
Phoneutria fera: é encontrada na região Amazônica, mas os dados sobre acidentes são muito precários.
Phoneutria keyserling: amplamente distribuída nas regiões Sul e Sudeste, com pequeno número de acidentes registrados.
Loxosceles amazonica: relato de acidente no Ceará
Loxosceles gaucho (aranha marrom): causa mais freqüente de acidentes em São Paulo.
Loxosceles intermedia: principal espécie causadora de acidentes no Paraná e Santa Catarina.
Loxosceles laeta: encontrada na região Sul, possivelmente causa de acidentes.
Latrodectus curacaviensis (viúva-negra, flamenguinha): acidentes relatados na Bahia e no Ceará.

Distribuição e Morbidade: são notificados anualmente cerca de 5.000 acidentes. A predominância destas notificações são nas região Sul e Sudeste, dificultando uma análise mais abrangente do acidente em todo o país. Em face das informações disponíveis pode-se considerar:

Distribuição segundo os meses do ano: observou-se que os acidentes por Phoneutria aumentam significamente no início da estação fria (abril/maio), enquanto os casos de loxoscelismo sofrem incremento nos meses quentes do ano (outubro/março). Isso pode estar relacionado ao fato de que no Sul e Sudeste, as estações do ano são melhor definidas quando comparadas às demais regiões do país.

Distribuição dos casos nos estados: a maioria dos acidentes por Phoneutria foram notificados pelo estado de São Paulo. Com respeito aos acidentes por Loxosceles, os registros provêm das regiões Sudeste e Sul, particularmente no estado do Paraná, onde se concentra a maior casuística de Loxoscelismo do país. A partir da década de 80, começaram a ser relatados acidentes por viúva-negra (Latrodectus) na Bahia e, mais recentemente, no Ceará.

2. Aspectos Clínicos
São três gêneros de importância médica no Brasil: Phoneutria, Loxosceles e Latrodectus, responsáveis por quadros clínicos distintos.

Foneutrismo: os acidentes causados pela Phoneutria sp representam a forma de araneísmo mais comumente observada no país.

Loxoscelismo: são descritas duas variedades clínicas:

Forma Cutânea: é a mais comum, caracterizando-se pelo aparecimento de lesão inflamatória no ponto da picada, que evolui para necrose e ulceração.

Forma Cutâneo-Visceral: além da lesão cutânea, os pacientes evoluem com anemia, icterícia cutâneo-mucosa, hemoglobinúria. A insuficiência renal aguda é a complicação mais temida. O tratamento soroterápico está indicado nas duas formas clínicas do acidente por Loxosceles. Dependendo da evolução, outras medidas terapêuticas deverão ser tomadas.

Latrodectismo: quadro clínico caracterizado por dor local intensa, eventualmente irradiada. Alterações sistêmicas como sudorese, contraturas musculares, hipertensão arterial e choque são registradas.

Diagnóstico Clínico: visando facilitar o raciocínio diagnóstico dos profissionais, foram resumidos nos Quadros 5 e 6, os principais sinais e sintomas dos acidentes por animais peçonhentos mais comuns. Observe-se que o diagnóstico clínico é o de mais fácil execução, baseando-se fundamentalmente no achado das alterações decorrentes das ações do veneno. Tem-se convencionado chamar de "provável" o acidente cujo diagnóstico é estabelecido por critérios clínicos (e eventualmente com algum suporte laboratorial, como a determinação do Tempo de Coagulação).

Resumo dos Sinais e Sintomas dos Acidentes por Aranhas e Escorpiões

TIPO DE ANIMAL

SINAIS E SINTOMAS

ARANHAS

Phoneutria (armadeira)

Dor local intensa, freqüentemente irradiada, edema discreto, eritema e sudorese local

Latrodectus (viúva-negra, flamenguinha)

Dor local intensa, irradiando-se para os gânglios regionais, contraturas musculares, fasciculação, opistótomo, rigidez da parede abdominal, trisma, sudorese, hipertensão arterial, taquicardia que evolui para bradicardia, priapismo.
Casos graves: choque

Loxosceles (aranha-marrom)

Sinais e sintomas geralmente após 6-12 horas, cefaléia, febre, equimose no local da picada com eritema e edema duro, que pode evoluir com bolha e necrose local, deixando úlcera de contornos nítidos

ESCORPIÕES

Tityus (escorpião amarelo, escorpião marrom, escorpião preto)

Dor local intensa, freqüentemente irradiada, edema discreto e sudorese local.
Casos graves: alterações cardiovasculares e edema agudo de pulmão

Tratamento Soroterápico: os soros anti-peçonhentos são obtidos a partir da imunização de cavalos, inoculados com os respectivos venenos dos diferentes grupos de animais peçonhentos de importância médico-sanitária. São apresentados na forma líquida, em ampolas de concentrações definidas para cada um dos tipos. O prazo de validade dos soros é de 3 anos, se convenientemente armazenados em geladeira, a temperatura de 2 a 8 graus centígrados, devendo-se evitar seu congelamento.

Via de Administração: a via preferencial para administração do soro antiveneno é a endovenosa (EV).

Reações Adversas: precedendo a infusão do antiveneno, recomenda-se a utilização de anti-histamínico do tipo Prometazina, por via intramuscular (IM). Esse procedimento visa diminuir os riscos de reações alérgicas do tipo imediato, das quais a mais temida é o choque anafilático.

NOTA: Pela baixa capacidade em prever reações alérgicas, a prova intradérmica foi abolida da rotina, não sendo mais recomendada.

Doses: as quantidades de antiveneno a serem administradas estão na dependência da gravidade do envenenamento. No quadro são referidos os diferentes esquemas de doses recomendadas.

Indicação do Número de Ampolas de Soros Antiveneno para Tratamento de Acidentes por Ofídios e Aracnídeos Peçonhentos

Acidente causado por

Classificação e nº de Ampolas

Tipo de Soro

LEVE

MODERADO

GRAVE

Bothrops (jararaca)

2- 4

4 - 8

12

SAB/SABL ou SABC

Crotalus (cascavel)

5

10

20

SAC/SABC

Micrurus (coral)

*

*

10

SAE

Lachesis (surucucu)

**

10

20

SABL/SAL

Tityus (escorpião)

***

2 - 3

4 - 6

SAEEs/SAAr

Phoneutria (armadeira)

***

2- 4

5 - 10

SAAr

Loxosceles (aranha marrom)

***

5

10

SAAr/SALox

Latrodectus (viúva negra)

**

1

2

SALatr

SAC Soro Anticrotálico
SABC Soro Antibotrópico-crotálico
SABL Soro Antibotróbico-laquético
SAL Soro Antilaquético
SAB Soro Antibotrópico
SAE Soro Antielapídico
SAEEs Soro Antiescorpiônico
SAAr Soro Antiaracnídico
SALox Soro Antiloxocélico
SALatr Soro Antilatrodetico (importado da Argentina)
* clinicamente os acidentes são classificados como graves ou potencialmente graves.
** clinicamente os acidentes são classificados como moderados ou graves.
*** dispensa soroterapia, indicando-se tratamento sintomático e observação hospitalar.


Se o número de ampolas em estoque for inferior ao recomendado, a soroterapia deve ser iniciada com a dose disponível enquanto se providencia o tratamento complementar.


Complicações
Ofidismo: os dados disponíveis revelam que cerca de 10% dos picados por Bothrops evoluem com necrose e/ou abscesso local. Cerca de 1% dos casos sofrem algum grau de amputação. A complicação mais temida é a insuficiência renal aguda (IRA), possivelmente causa maior de óbito, observada tanto nos acidentes crotálicos como botrópicos, sendo mais graves no segundo grupo. Ressalte-se que dentre os fatores estudados favorecem as complicações: a demora no atendimento; o emprego de torniquetes (ou garrotes); a manipulação cirúrgica precoce das lesões; os acidentes em crianças, gestantes e idosos

Escorpionismo: casos convenientemente tratados são de boa evolução, em geral sem complicações posteriores.

Araneísmo: os acidentes por Loxosceles, com lesões necróticas de pele, têm evolução longa dada a lentidão na cicatrização da úlcera. Alguns estudos têm demonstrado que a cicatrização se completa de 4 a 8 semanas após a picada. Cicatrizes retráteis ou inestéticas podem necessitar de cirurgia reparadora. Acidentes por Phoneutria ou Latrodectus são de evolução aguda e, após o tratamento, não deixam seqüelas.

Referência: Guia Brasileiro de Vigilância Epidemiológica 1998. 
Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde

Próxima>>

Recomendar esta página via e-mail: