(Ofídios) Aspectos Epidemiológicos

Ofidismo

1. Aspectos Epidemiológicos
Dentre os acidentes por animais peçonhentos, o ofidismo é o principal deles, pela sua freqüência e gravidade. Ocorre em todas as regiões e estados brasileiros e é um importante problema de saúde, quando não se institui a soroterapia de forma precoce e adequada.

Agentes Causais: são 4 os gêneros de serpentes brasileiras de importância médica (Bothrops, Crotalus, Lachesis e Micrurus) compreendendo cerca de 60 espécies. Alguns critérios de identificação permitem reconhecer a maioria das serpentes peçonhentas brasileiras, distinguindo-as das não peçonhentas:

  1. as serpentes peçonhentas possuem dentes inoculadores de veneno, localizados na região anterior do maxilar superior. Nas Micrurus (corais), essas presas são fixas e pequenas, podendo passar despercebidas.

  2. presença de fosseta loreal - com exceção das corais, as ser-pentes peçonhentas têm entre a narina e o olho um orifício termo receptor, denominado fosseta loreal. Vista em posição frontal este animal apresentará 4 orifícios na região anterior da cabeça, o que justifica a denominação popular de "cobra de quatro ventas".

  3. as corais verdadeiras (Micrurus) são a exceção à regra acima referida, pois apresentam características externas iguais às das serpentes não peçonhentas (são desprovidas de fosseta loreal, apresentando coloração viva e brilhante). De modo geral, toda serpente com padrão de coloração que inclua anéis coloridos deve ser considerada perigosa.

  4. as serpentes não peçonhentas têm geralmente hábitos diurnos, vivem em todos os ambientes, particularmente próximos às coleções líquidas, têm coloração viva, brilhante e escamas lisas. São popularmente conhecidas por "cobras d'água", "cobra cipó", "cobra verde", dentre outras numerosas denominações. Estão relacionadas, abaixo, as espécies consideradas de maior importância médico-sanitária, em face do número ou da gravidade dos acidentes que provocam, nas diversas regiões do país.

Grupo Botrópico: apresentam cabeça triangular, fosseta loreal, cauda lisa e presa inoculadora de veneno.

Serpentes do Grupo Botrópico de importância médica

NOME CIENTÍFICO

NOMES POPULARES

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA

B. alternatus (1)

urutu urutu-cruzeira cruzeira

RS, SC, PR, SP, MS e MG

B. atrox (2)

surucucurana
jararaca-do-norte 
combóia
jararaca-do-rabo-branco

AC, AM, RR, PA, AP, MA, RO, TO, CE e MT (áreas de floresta)

B. erythromelas (3)

jararaca-da-seca

PI, CE, RN, PB, PE, AL, SE, BA e MG (áreas xerófitas/caatinga)

B. jararaca (4)

jararaca jararaca-do-rabo-branco

BA, MG, ES, RJ, SP, PR, SC e RS

B. jararacuçu (5)

jararacuçu

BA, ES, RJ, SP, PR, MG, MT e SC

B. leucurus (6)

 

BA

B. moojeni (7)

jararacão 
jararaca 
caiçaca

PI, TO, DF, GO, MG, SP, MT, MS e PR

B. neuwiedi (8)

jararaca-pintada

Em todo o país, exceto Amazônia


(1) Poucos relatos de casos. Acidentes graves
(2) Até o presente, é a espécie responsável pela maioria dos registros de acidentes na Amazônia.
(3) Os distúrbios de coagulação são as manifestações mais comumente registradas. Acidentes com poucas alterações locais, geralmente benignos.
(4) Principal agente causal nos estados de MG, ES, RJ e SP. Casos graves ou óbitos são pouco freqüentes.
(5) Acidentes relatados, principalmente em SC. Acidentes graves com casos fatais.
(6) Causa freqüente de acidentes atendidos na cidade de Salva-dor, BA.
(7) Responsável pela maioria dos registros de acidentes no oeste de SP, oeste de MG e dos atendimentos em Goiânia/GO
(8) Amplamente distribuída pelo território nacional, com exceção da Amazônia. Acidentes geralmente com bom diagnóstico.


Grupo Crotálico: cabeça triangular, presença de fosseta loreal, cauda com chocalho (guizo) e presa inoculadora de veneno.

Serpentes do Grupo Crotálico de Importância Médica

NOME CIENTÍFICO

NOMES POPULARES

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA

Crotalus durissus (1)

cascavel
maracambóia
boicininga

Em todo o país, exceto áreas florestais e zona litorânea (2)

(1) Há 5 subespécies de cascavéis no país. Os acidentes caracterizam-se pela sintomatologia sistêmica exuberante, com poucas manifestações locais.
(2) Dados recentes relatam C. durissus no litoral da Bahia.

Grupo Laquético: grande porte, cabeça triangular, fosseta loreal e cauda com escamas arrepiadas e presa inoculadora de veneno.

Serpentes do Grupo Laquético de Importância Médica

NOME CIENTÍFICO

NOMES POPULARES

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA

Crotalus durissus (1)

cascavel 
maracambóia boicininga

Em todo o país, exceto áreas florestais e zona litorânea (2)

(1)Com duas subespécies, é a maior serpente peçonhenta das Américas. Poucos relatos de acidente onde o animal causador foi trazido para identificação. 
(2) Existem semelhanças nos quadros clínicos entre os acidentes laquético e botrópico, com possibilidade de confusão diagnóstica entre eles. Estudos clínicos mais detalhados se fazem necessários para melhor caracterizar o acidente laquético.

Grupo Elapídico: desprovidas de fosseta loreal, com cabeça arredondada e presa inoculadora de veneno. A característica fundamental no reconhecimento desse grupo é o padrão de coloração, com combinações diversas de anéis vermelhos, pretos e brancos. Deve-se considerar que existem serpentes com desenhos semelhantes aos das corais, mas que não possuem presa inoculadora. Há ainda, na Amazônia, corais verdadeiras com cor marrom escura, quase negra e ventre avermelhado.

Serpentes do Grupo Elapídico de importância médica

NOME CIENTÍFICO

NOMES POPULARES

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA

M. corallinus

coral 
boicorá

BA, ES, RJ, SP, MS, PR, SC e RS

M. frontalis

coral

MT, MS, GO, BA, MG, SP, PR, SC, RS, DF

M. ibiboboca

coral 
ibiboboca

MA, PI, CE, RN, PB, PE, SE, AL, BA e MG

M. lemniscatus

coral

AM, PA, RR, AP, MA, RN, AL, PE, BA, GO, MG, MT, MS, RJ e SP

M. surinamensis

coral 
coral aquática

AM, PA, RR, AP, MA, AC e RO

M. spixii

coral

AM, PA, MA, RO, MT e AC

Esse grupo compreende 18 espécies, distribuídas amplamente pelas diferentes regiões do país. A M. corallinus é a que tem causado maior número de acidentes, dentre os poucos casos registrados em SC e SP. Na Bahia, a maioria dos acidentes são devidos a M. ibiboboca.

Distribuição, Morbidade, Mortalidade e Letalidade: a distribuição sazonal dos casos, embora apresente diferenças regionais mostra, para o país como um todo, incremento no número de casos no período de setembro a março. Sendo a maioria das notificações procedentes das regiões meridionais do país, a tendência detectada estaria relacionada, nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, ao aumento da atividade humana nos trabalhos do campo (preparo da terra, plantio e colheita) e da não utilização de equipamentos mínimos de proteção individual (calçados ou vestimenta adequados). Cerca de 75% dos casos notificados são atribuídos às ser-pentes do gênero Bothrops; 7% ao gênero Crotalus; 1,5% ao gênero Lachesis; 3% devidos às serpentes não peçonhentas e 0,5% provocados por Micrurus. Em aproximadamente 13% das notificações, não são especificados os gêneros das serpentes envolvidas nos acidentes. Cerca de 70% dos pacientes são do sexo masculino, o que é justificado pelo fato do homem desempenhar com mais freqüência atividades de trabalho fora da moradia, onde os acidentes ofídicos habitualmente ocorrem. Em aproximadamente 53% das notificações, a faixa etária acometida situou-se entre 15-49 anos, que corresponde ao grupo de idade onde se concentra a força de trabalho. O acometimento dos segmentos pé/perna em 70%, e mão/antebraço, em 13% dos casos notificados, decorre da não utilização de equipamentos mínimos de proteção individual, tais como sapatos, botas, calças de uso comum e luvas. No Brasil são notificados anualmente cerca de 20.000 acidentes, com uma letalidade em torno de 0,43%. O acidente crotálico tem a pior evolução, apresentando o maior índice de letalidade. Os valores detectados para os diver-sos tipos de acidentes assim se distribuíram: Botrópico, 0,31%; Crotálico, 1,85%; Laquético, 0,95% e Elapídico, 0,36%. Em cerca de 19% dos óbitos não são informados os gêneros das serpentes envolvidas nos acidentes.

Resumo dos sinais e sintomas dos acidentes por serpentes

Serpentes Peçonhentas

SINAIS E SINTOMAS

Precoces

Tardios

Bothrops (jararaca, urutu, jararacuçu, cotiara e caiçaca)

Dor, edema, equimose,coagulação normal ou alterada, sangramento (gengivorragia)

Bolhas, abscesso, necrose, oligúria, insuficiência renal aguda

Lachesis (surucucu, surucucu pico-de-jaca)

Poucos casos estudados: semelhante ao acidente botrópico, acrescido de sinais de excitação vagal (bradicardia, hipotensão arterial e diarréia)

 

 Crotalus (cascavel)

Ptose palpebral, diplopia, turvação visual, oftalmoplegia, parestesia no local da picada, edema discreto, dor muscular generalizada, coagulação normal ou alterada

Urina avermelhada ou escura, oligúria, insuficiência renal aguda

Micrurus (coral verdadeira)

Acidentes raros, ptose palpebral, diplopia, oftalmoplegia, dor muscular generalizada, insuficiência respiratória aguda

 


2. Aspectos Clínicos
As alterações clínicas mais comumente observadas na fase aguda dos diversos tipos de envenenamento possibilitam o diagnóstico clínico, com boa margem de acerto

Acidente Botrópico: no local da picada as manifestações mais freqüentes são edema, dor, equimose e sangramento. Alterações sistêmicas, como a incoagulabilidade sangüínea (avaliada pela determinação do tempo de coagulação), pode ser acompanhada de fenômenos hemorrágicos como gengivorragia, hematúria, sangramentos por ferimentos recentes. Oligoanúria e/ou alterações hemodinâmicas, como hipotensão arterial persistente e choque, definem os casos como graves.

Acidente Laquético: bastante semelhante ao acidente botrópico. Além das alterações acima referidas, têm sido descritos fenômenos de excitação vagal, clinicamente traduzidos por bradicardia, hipotensão arterial, diarréia e vômitos.

Acidente Crotálico: o quadro local é pouco expressivo, não há edema ou dor, eventualmente sendo referida parestesia local. Das manifestações sistêmicas, o quadro neuroparalítico é de aparecimento precoce caracterizando-se por ptose palpebral, diplopia e oftalmoplegia. Mialgia generalizada, acompanhada de mioglobinúria, se manifesta cerca de 6 a 12 horas após o acidente, podendo haver evolução para insuficiência renal aguda, causa maior de óbito desse grupo.

Acidente Elapídico: o quadro neuroparalítico se manifesta por ptose palpebral, diplopia, mialgia e dispnéia, podendo evoluir para insuficiência respiratória aguda e óbito.

Diagnóstico Laboratorial: a determinação do Tempo de Coagulação (TC) constitui-se em medida auxiliar extremamente útil para confirmação de suspeita diagnóstica, pois muitos acidentes apresentam a incoagulabilidade sangüínea como única alteração detectável que possibilita o diagnóstico do envenenamento.

 

Referência: Guia Brasileiro de Vigilância Epidemiológica 1998. 
Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde


 

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