(Hantavirose) Aspectos Clínicos e Epidemiológicos - página 3

Ecoepidemiologia de Hantavírus

Os casos de síndrome pulmonar por hantavírus (SPH) notificados nas Américas estão invariavelmente associados ao contato com ambientes contaminados por excretas de roedores. Esses roedores, da sub-família Sigmodontinae, são animais de hábitos silvestres que, em determinados contextos ecológicos, podem se aproximar do ambiente peridomiciliar, em áreas rurais, facilitando a transmissão da virose para humanos. 

Como exemplo, temos a epidemia ocorrida em 1993 na região sudoeste dos EUA. Nesse episódio, a população do roedor silvestre Peromyscus maniculatus foi grandemente aumentada em decorrência de alterações climáticas (excesso de chuvas), que propiciaram uma maior oferta de alimentos. É um fato já conhecido que cada tipo de vírus do gênero Hantaan (Seoul, Puumala, Prospect Hill, Sin Nombre...) está associado à uma determinada espécie de roedor, a qual se constitui em seu reservatório. 

Como se sabe, o papel de reservatório implica em uma relação de dependência entre um determinado agente etiológico e uma espécie hospedeira, ou seja, a ausência da espécie reservatório impede a sobrevivência do agente em um ecossistema. No caso das hantaviroses, os roedores e sua dinâmica populacional são fundamentais para o entendimento dos seus aspectos epidemiológicos básicos. O estudo dos 22 casos (confirmados por critério clínico-epidemiológico e laboratorial ), já identificados nas 2ª, 5ª, 6ª e 7ª Regionais de Saúde do Paraná, confirmam os fatores de risco descritos anteriormente. Todos os casos analisados tiveram exposição à excretas de roedores em atividades profissionais, ou no ambiente peridomiciliar em área rural. As características ecológicas e sócio-econômicas da região centrosul paranaense são favoráveis à transmissão da doença, pois, sua economia é baseada em atividades agrárias desenvolvidas em propriedades rurais. É importante notar que a ocorrência da doença não deve ser recente na área, não sendo anteriormente diagnosticada pelo não conhecimento dos aspectos clínicos e epidemiológicos da doença por parte dos profissionais de saúde. 
Dentre os casos já estudados chama a atenção a associação observada com a atividade madeireira em áreas de reflorestamento, de Pinus sp. 

Os trabalhadores envolvidos nessa atividade vivem longos períodos de tempo em acampamentos precários. Nessas condições, estocam seus alimentos dentro dos abrigos sem as necessárias medidas de proteção, facilitando o acesso dos roedores. Estes, contaminam o ambiente com fezes e urina, determinando assim as condições propícias para a transmissão da doença. Também utilizam animais de tração nas atividades do corte da madeira. Esses animais são alimentados basicamente com milho que é estocado dentro das barracas, ao lado do alimento para consumo humano atraindo roedores. Hipoteticamente, a hantavirose no Paraná, parece estar associada aos seguintes fatores: 

  • Há mais ou menos vinte anos atrás iniciou-se na região, o plantio de Pinus sp, com incentivo governamental; 

  • Esse tipo de exploração teve seu corte intensificado há mais ou menos 2 a 3 anos atrás, uma vez o ponto ideal de corte das árvores é atingido entre 20 a 30 anos após o plantio; 

  • Concomitantemente, nestes últimos três anos, os preços internacionais da madeira atingiram valores que estimulam a indústria madeireira; 

  • Um terceiro fator foi o aparecimento da vespa da madeira (Sirex noctilio), identificada na região também nestes últimos dois anos determinando o imediato corte das árvores nas áreas afetadas como medida preventiva para a expansão do parasita. 

Esses três fatores, conjuntamente determinaram o aumento do numero de pessoas expostas ao risco de contrair a doença; ou seja os trabalhadores da indústria madeireira que passaram a invadir um habitat que, por mais de 20 anos esteve praticamente intocado.

Com isso, o ambiente sofreu grandes mudanças em sua ecologia. Os roedores, provavelmente as espécies de mamíferos melhor adaptadas às florestas de Pinus tiveram que buscar novos abrigos e alimentação. 

Os acampamentos dos trabalhadores, rusticamente construídos, situados muito próximos à essas florestas, representam excelente abrigo e refúgio para estes animais que ali encontram abrigo e alimentos. Nesta situação aumenta o risco de infecção pelo maior contato com os roedores e suas excreções. 

Em última análise, o desequilíbrio ecológico no ecossistema artificial provocado pela atividade econômica possibilitou o encontro do ser humano com os roedores e, conseqüentemente, o incremento de casos de hantavirose. 

A substituição da mata natural por espécies vegetais exóticas, implica em profundas alterações ambientais, eliminando ou diminuindo, entre outras conseqüências, as populações das diversas espécies animais e entre elas muitos dos predadores naturais de roedores, como ofídios e aves de rapina. Nessas condições, apenas as espécies mais adaptáveis conseguem sobreviver.

Os roedores são animais conhecidos por sua grande capacidade de adaptação aos mais diversos ambientes, sendo os mais numerosos e amplamente distribuídos entre os mamíferos. Possivelmente, esses e outros aspectos estejam influenciando na sobrevivência de várias espécies de roedores nessas áreas e influindo, portanto, no risco de transmissão da doença.

Fonte: Guia Brasileiro de Vigilância Epidemiológica 1998. 
Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde

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