Hanseníase
A hanseníase é uma doença infecciosa de evolução crônica, curável, mas que ainda representa um grande desafio de saúde pública no Brasil, especialmente por sua forte associação com a pobreza e a vulnerabilidade social. O diagnóstico precoce e o tratamento oportuno constituem as ferramentas mais eficazes para interromper a cadeia de transmissão do Mycobacterium Leprae na comunidade e prevenir o desenvolvimento de incapacidades físicas e danos neurais irreversíveis.
A Atenção Primária à Saúde (APS) é a principal porta de entrada e a coordenadora do cuidado, sendo responsável por acolher o usuário, realizar a suspeição diagnóstica e coordenar o fluxo de atendimento em toda a Rede de Atenção à Saúde (RAS). É essencial que as equipes de saúde estejam capacitadas para reconhecer prontamente os sintomas iniciais e realizar a busca ativa de casos novos, além de promover o exame dermatoneurológico sistemático de todos os contatos domiciliares.
No contexto do Paraná, que concentra o maior número de casos da Região Sul, o enfrentamento da hanseníase demanda ações integradas de vigilância e assistência, com foco na redução do diagnóstico tardio e das formas avançadas da doença, conforme previsto no Plano Estratégico para o Enfrentamento da Hanseníase no Paraná 2025–2030. Essas diretrizes estão alinhadas à Estratégia Nacional 2024–2030, cuja visão é a construção de um Brasil livre da hanseníase e cuja missão é reduzir de forma expressiva a carga da doença, por meio de metas como a interrupção da transmissão e a eliminação do estigma e da discriminação.
O que é
A hanseníase é uma doença tropical negligenciada (DTN), infectocontagiosa e de evolução crônica, causada pela bactéria Mycobacterium Leprae. Ela afeta primariamente os nervos periféricos e a pele, mas também pode acometer a mucosa do trato respiratório superior, olhos, linfonodos, testículos e órgãos internos, dependendo da resposta imune do hospedeiro. A doença está fortemente associada a situações de vulnerabilidade social e econômica.
Diagnóstico
O diagnóstico permanece essencialmente clínico, baseado no exame detalhado da pele e dos nervos periféricos. Um caso é definido pela presença de pelo menos um dos três sinais cardinais:
- Lesões ou áreas da pele com alteração de sensibilidade térmica, dolorosa ou tátil;
- Espessamento de nervo periférico associado a alterações sensitivas, motoras ou autonômicas;
- Presença do bacilo confirmada por baciloscopia de esfregaço intradérmico ou biópsia de pele.
A baciloscopia é um exame complementar importante, mas sua baixa sensibilidade (detecta cerca de 50% dos casos) significa que um resultado negativo não exclui o diagnóstico. Novas tecnologias foram incorporadas ao SUS em 2022 para apoiar a investigação de contatos, como o teste rápido imunocromatográfico e o teste de biologia molecular (qPCR).
Transmissão
O Mycobacterium Leprae é transmitido pelo contato direto pessoa a pessoa, sendo facilitado pelo convívio próximo e prolongado. A principal fonte de infecção são indivíduos com alta carga bacilar (multibacilares) que não estão em tratamento e eliminam os bacilos pelas vias aéreas superiores. O período de incubação é longo, durando em média cinco anos, mas podendo variar de um a mais de 20 anos.
Sintomas
O comprometimento dos nervos periféricos pode causar danos agudos (neurites) ou insidiosos (neurite silenciosa). Os principais sinais incluem:
- Dormência, formigamento, choques ou câimbras em braços e pernas.
- Manchas esbranquiçadas ou avermelhadas persistentes com perda de sensibilidade, pelos ou sudorese.
- Espessamento e dor nos nervos (especialmente ulnar, radial, mediano, fibular e tibial posterior).
- Diminuição da força muscular nas mãos e pés, podendo gerar "garra", "mão caída" ou "pé caído".
- Problemas oculares como diminuição do piscar, lagoftalmo (dificuldade em fechar os olhos), triquíase ou opacidade da córnea.
- Alterações nasais como entupimento, feridas ou perfuração do septo.
Tratamento
O tratamento é realizado via Poliquimioterapia Única (PQT-U), que combina rifampicina, dapsona e clofazimina para todos os pacientes. É fornecido gratuitamente pelo SUS e a duração depende da classificação operacional:
- Hanseníase Paucibacilar (PB): 6 doses mensais em até 9 meses.
- Hanseníase Multibacilar (MB): 12 doses mensais em até 18 meses.
A cura é alcançada ao completar o número total de doses supervisionadas. É vital monitorar reações hansênicas, que são episódios inflamatórios que podem ocorrer antes, durante ou após a alta, exigindo medicamentos específicos como corticoides (prednisona), talidomida ou pentoxifilina.
Hanseníase em números
O Brasil é o segundo país do mundo em número de casos, atrás da Índia. E é o primeiro em incidência, ou seja, tem maior proporção de casos novos, quando se compara o número de doentes e o tamanho da população. No Paraná o maior problema é o desconhecimento da doença, que faz com que os casos, sejam detectados tardiamente, muitas vezes com sequelas permanentes.
| Casos novos | 2009 | 2010 | 2011 | 2012 | 2013 | 2014 | 2015 | 2016 | 2017 | 2018 | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Total | 1194 | 1064 | 1012 | 989 | 865 | 744 | 729 | 585 | 554 | 559 | 571 | 388 | 423 | 393 | 463 | 413 | 403 |
| Menores de 15 anos | 17 | 18 | 9 | 16 | 12 | 11 | 6 | 2 | 5 | 7 | 8 | 2 | 6 | 6 | 4 | 3 | 0 |
Fonte: SINAN/SVSA/MS - ESUSVS/ES, a partir de 2020. Dados finais disponibilizados em 06/02/2025.
Plano Estratégico de Enfrentamento à Hanseníase no Paraná 2025-2030
Materiais de apoio
- Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase
- Formulário de Avaliação Neurológica Simplificada (ANS) - 2026
- Estratégia Nacional para Enfrentamento à Hanseníase 2024-2030
- Análise das Incapacidades provocadas pela Hanseníase no Brasil
- Cartilha - Uso do teste rápido para contato de hanseníase: orientações para usuários(as) da unidade de saúde sobre o teste rápido da hanseníase
- Cartilha - Uso do teste rápido para contato de hanseníase: orientações para os profissionais da saúde sobre o teste rápido da hanseníase
Contatos
Programa Estadual de Enfrentamento à Hanseníase
Telefone: (41) 3330-4576
E-mail: hanseniaseparana@sesa.pr.gov.br
Referência Técnica Estadual: Ana Caroline Dias


