Por trás de 10 mil vidas salvas: o trabalho invisível das OPOs que faz do Paraná referência nacional em transplantes 22/09/2026 - 15:09

Quando a sirene de uma carro da central de transplantes toca ou um avião do Estado decola transportando um coração ou um fígado para transplante, essa é a etapa final de uma verdadeira corrida contra o tempo. Mas, para que um órgão chegue às mãos do cirurgião, existe uma rede complexa de bastidores que atua nas horas mais críticas. No Paraná, o motor invisível dessa engrenagem atende por uma sigla: OPO (Organização de Procura de Órgãos).

É justamente o trabalho diário e incansável dessas equipes que sustenta o protagonismo paranaense no cenário nacional. O "Setembro Verde", mês nacional de conscientização sobre a doação de órgãos, pauta o momento ideal para dar luz a quem atua nessa linha de frente e celebrar o reflexo mais concreto da atuação das OPOs: a marca histórica de mais de 10 mil transplantes realizados no Paraná desde a criação do Sistema Estadual de Transplantes (SET), em 2011, levando esperança e novas oportunidades de vida a milhares de pessoas.

Os dados reforçam o impacto de toda essa estrutura. Em 2021, entre janeiro e agosto, o Estado registrou 70 doações. No mesmo período de 2026, foram 293 doações efetivas, o que configura um salto superior a 300%. Em números anuais fechados, as doações pularam de 111, em 2011, para 462, em 2025. Somente entre janeiro e setembro deste ano, 1.386 transplantes de órgãos e tecidos já foram realizados. E a resposta para esses resultados está no trabalho técnico e articulado das OPOs, que atuam junto aos hospitais, acompanham todo o processo de doação, apoiam as equipes e promovem o acolhimento e a humanização do contato com as famílias.

"Alcançar a marca de mais de 10 mil transplantes não é obra do acaso. É resultado de uma rede descentralizada, de infraestrutura logística forte e, principalmente, de profissionais que têm uma vocação extraordinária. As nossas equipes provam diariamente que a saúde pública de excelência se faz com muita técnica, mas acima de tudo com empatia e humanidade na hora de acolher as famílias paranaenses", destaca o secretário de Estado da Saúde, César Neves.

E para garantir essa excelência em todas as regiões que o Sistema Estadual de Transplantes (SET-PR) atua como um maestro dessa estrutura. Segundo a coordenadora do sistema, Juliana Ribeiro, o segredo do sucesso do Paraná está na integração ininterrupta de todas as peças.

"O sistema não para nunca. Nós monitoramos o Estado inteiro, 24 horas por dia, unindo quem precisa de um órgão com a rede que pode torná-lo viável. A engrenagem paranaense só roda com essa velocidade porque temos equipes formadas por profissionais extremamente dedicados na ponta, que são os nossos braços dentro e fora das UTIs", explica.

DESCENTRALIZAÇÃO E ACOLHIMENTO – Esses "braços" a que a coordenadora se refere formam a espinha dorsal logística do Estado. A rede paranaense conta atualmente com quatro OPOs, estrategicamente distribuídas para cobrir todo o mapa: Curitiba (Leste), Cascavel (Oeste), Maringá (Noroeste) e Londrina (Norte). Ao todo, são apenas 26 funcionários no Estado inteiro que orquestram esse balé complexo.

A regionalização permite que as equipes conheçam de perto a realidade dos hospitais de sua área. Tudo começa quando um hospital notifica um paciente com quadro neurológico grave e potencial evolução para morte encefálica. A OPO, juntamente com as Equipes Hospitalares de Doação para Transplantes (e-DOTs) de cada instituição, entra em ação para validar o diagnóstico, garantir a manutenção clínica (para manter os órgãos viáveis) e preparar o momento mais delicado do processo: a entrevista familiar.

É neste exato momento que o Paraná se diferencia do resto do país. Enquanto a média nacional de recusa familiar para a doação de órgãos é de 45%, no Paraná esse índice cai para 33%, uma das menores taxas do Brasil.

O baixo índice de negativas se deve, em parte, ao treinamento e à preparação constante das equipes. Na abordagem à família, profissionais das OPOs e das e-DOTs não chegam ‘pedindo órgãos’, mas oferecendo suporte, acolhendo, ouvindo e esclarecendo dúvidas diante de quem acaba de receber a pior notícia possível. O “sim” para a doação é, muitas vezes, também reflexo do cuidado, da informação e do acolhimento recebidos ao longo desse processo.

COMANDO – Assim que a família autoriza a doação, a OPO se transforma em um centro de logística ágil. A equipe articula-se com o SET-PR, aciona equipes captadoras, reserva centros cirúrgicos, providencia a identificação das amostras biológicas e, quando necessário, articula liberações com o Instituto Médico-Legal (IML). É a OPO que garante que as equipes cirúrgicas encontrem o cenário perfeito ao chegarem ao hospital.

Mas o trabalho da equipe não termina na porta do bloco cirúrgico. Como pontua o coordenador da OPO de Cascavel, Marcelo de Souza Furtado, a missão exige dedicação constante aos profissionais das próprias instituições de saúde.

“Mesmo quando não há captação, nós estamos dentro dos hospitais capacitando as Equipes Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (e-Dots), treinando médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e os demais profissionais envolvidos no processo, desde a comunicação de más notícias e o acolhimento às famílias até os cuidados necessários para manter um potencial doador viável. O nosso trabalho é de educação permanente, para que toda a rede esteja sempre preparada”, detalha.

SENSIBILIZAÇÃO – E essa vocação para educar extrapola os muros dos hospitais e ganha as ruas. A OPO não atua apenas na urgência, mas na mudança cultural contínua da sociedade. A unidade de Cascavel, responsável por cobrir o Oeste e Sudoeste do Estado, é um exemplo prático de como a conscientização prévia salva vidas. Somente entre janeiro e setembro de 2026, a unidade foi responsável por viabilizar 80 doações efetivas, além de mais de 256 transplantes realizados.

A OPO de Cascavel conta com uma equipe que promove ações criativas ao longo do ano para desmistificar o tema, como a criação do "Bloco Doação de Órgãos, Fale sobre isso". A iniciativa aproveita datas nacionais de grande mobilização para naturalizar a conversa sobre a doação em momentos de descontração da comunidade.

Para o coordenador Marcelo, essa presença constante é o que prepara o terreno para a hora da decisão. Ele explica que a missão das OPOs e das equipes hospitalares (e-DOTs) vai muito além da logística médica e operacional, exigindo um trabalho contínuo para aproximar o tema da comunidade. "Quando levamos essa conversa para os eventos de forma leve, o nosso objetivo é fazer com que a doação seja conversada na mesa de jantar das pessoas. O 'sim' que recebemos de uma família no leito de UTI, em um momento de dor extrema, é fruto direto dessa conscientização prévia que nós construímos dentro e fora dos hospitais", resume.

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